Breves notas sobre a (falsa) questão da internacionalização da arte contemporânea portuguesa. Um ponto de vista institucional.

Kunstalle Lissabon

Ao longo das últimas décadas tem havido um debate regular sobre as políticas culturais públicas no que diz respeito à internacionalização da arte contemporânea portuguesa. A condição geográfica periférica, a falta de recursos e a relativa ausência de especialização dos agentes intervenientes são fatores que têm sido frequentemente apontados para justificar, ou talvez legitimar, a ausência regular de artistas portugueses em circuitos internacionais de visibilidade, reconhecimento e consagração. As exceções existem, como é óbvio, e aparentam ser mais frequentes com o passar do tempo mas, se por um lado, acabam por confirmar estes argumentos, por outro, testemunham também a existência de um problema estrutural na forma como o conceito de “internacionalização” é entendido atualmente nos processos de tomada de decisão na área das políticas culturais e no modus operandi das instituições artísticas portuguesas.

A Kunsthalle Lissabon, enquanto pequena instituição dedicada à prática artística contemporânea, de vocação fundamentalmente internacional, mas fortemente enraizada no contexto em que se inscreve, habita uma posição complexa, subjetiva e muito frequentemente emocional no que diz respeito a este assunto. Não pode, por motivos óbvios, nem pretende ter qualquer pretensão em definir, ou mesmo alinhavar um esboço de política para a internacionalização da prática artística contemporânea, até porque acredita que, e será esse o argumento principal das breves reflexões que constituem o presente texto, a própria noção de internacionalização de algo nacional, e de algo específico a um determinado contexto geográfico, não consegue dar conta e relacionar-se de maneira relevante e produtiva com a forma como o campo das artes plásticas global se estrutura atualmente.

Pensar a arte contemporânea nacional numa lógica de internacionalização pressupõe dois problemas fundamentais. O primeiro consiste em assumir a internacionalização como um processo de exportação, ou seja, entender a prática artística, e os artistas, curadores, etc. Como um produto ou bem que se exporta para o estrangeiro, para fora do país, numa lógica de mercado semelhante a qualquer outro produto. O segundo, não sem relação com o primeiro, consiste em pensar o movimento de internacionalização a partir de uma dialética nós-eles, ou nós-resto-do-mundo, o qual representa um ponto de vista articulado em torno de noções de interioridade e exterioridade da origem da prática artística. Tal ponto  de vista dificilmente consegue ser operacional num contexto caracterizado por uma extrema mobilidade não só de agentes, obras e discursos artísticos como também, e talvez sobretudo, do conhecimento e do capital. Em simultâneo, o entendimento da internacionalização como a exportação de algo que é local, “nosso”, para o estrangeiro, para o resto do mundo, entronca num outro problema que diz respeito à internacionalização da arte contemporânea como o lugar da representação nacional, daquilo que é português. Todos os anos, são inúmeras as exposições de arte contemporânea portuguesa, de âmbito e qualidade variáveis, apresentadas em diferentes contextos institucionais e que pretendem dar a ver aquilo  que de melhor se faz no território nacional. Na verdade, para além de instrumentalizarem artistas e suas obras em nome de uma suposta identidade nacional, abordagem curatorial problemática tanto de um ponto de vista concetual como ético, operam de maneira oposta ao desejado, na medida em que tendem a constranger uma proposta artística a uma formação geo-política específica em vez de a inscreverem num contexto global alargado de produção contemporânea de subjetividade.

Mas como, se de todo possível, ir para além da internacionalização como exportação, instrumentalização e representação nacional? Fará sentido falar de internacionalização da arte contemporânea portuguesa? Fará sentido falar em “internacionalização” se não nestes termos? A Kunsthalle Lissabon acredita que sim, desde que de forma diferente. Tentando, desde o início recusar dicotomias estafadas como alternativo-mainstream, dependente-independente ou local-global, problematizando-as a partir do seu interior, a questão da internacionalização não se coloca tanto em termos da internacionalização da arte portuguesa mas antes como a internacionalização enquanto uma forma complexa, sistémica e crítica de existir e agir no e para o mundo. Não se trata de tentar internacionalizar algo, mas de assumir que a nossa condição é internacional e não existe forma de a contrariar.

De um ponto de vista concreto significa que a internacionalização não é entendida como um processo exógeno, unilateral, de exportação, mas que constitui um constante diálogo, troca e negociação com o mundo onde existimos. Expor artistas estrangeiros em Portugal, por exemplo, é tanto parte desse diálogo, como o exercício inverso, expor artistas portugueses no estrangeiro. Co-produzir projetos em Lisboa, no Porto, em Tomar, em Vila Nova de Cerveira, em Antuérpia, Beirute, Roma, Cairo, Nova Iorque ou na Cidade do México é ser internacional, independentemente do que esse lugar possa representar. Tornar a cidade em que vivemos e trabalhamos um sítio onde mais artistas e curadores se queiram fixar, não porque é uma cidade portuguesa, mas porque é uma cidade que oferece condições de trabalho e qualidade de vida inigualáveis, é ser internacional.

Ser internacional e, por consequência, internacionalizar é recusar o determinismo da nacionalidade, e tudo o que acarreta, seja na arte contemporânea como em tudo o resto. Quando conseguirmos abandonar estas dicotomias, quando elas deixarem de funcionar ou de configurar qualquer tipo de relação com a prática artística contemporânea, aí sim, ter-nos-emos tornado verdadeiramente internacionais.