Conversa sobre curadoria com Fernanda Brenner

Kunstalle Lissabon, Fernanda Brenner

A ideia de abordar tópicos essenciais à constituição do pensamento e reflexão curatoriais, num formato dialógico, de partilha e troca de ideias, com pessoas que têm vindo a desenvolver uma prática relevante na área, tem sido o principal objetivo desta secção da Re.vis.ta. Achamos fundamental partilhar com o público português projetos, ideias e modos de fazer relevantes para o estabelecimento da curadoria enquanto campo disciplinar autónomo. A ideia de expandirmos o alcance destas discussões para projetos e curadores que se encontram fora de Portugal sinaliza também uma das condições para que esta secção traga novas vozes à discussão, por vezes demasiado centrada no que nos parecem ser idiossincrasias nacionais. Conversamos desta vez com Fernanda Brenner, diretora artística do Pivô, instituição que fundou em São Paulo em 2012.

João Mourão / Luís Silva: A melhor forma de iniciar esta conversa (na verdade é mais uma continuação do que um início, já que a nossa discussão sobre curadoria e modelos institucionais teve inicio em sítios como Madrid, Cidade do México e, mais recentemente, Lisboa) passa por pedir-te para voltar atrás no tempo até ao momento em que decides criar o Pivô. Quais foram os motivos e ambições que te levaram a montar um espaço expositivo num edifício tão icónico como o Copan?

Fernanda Brenner: Eu acho que foi uma combinação de vários fatores, pessoais e contextuais. Antes de tudo, acho que vale a pena ressaltar o momento político-econômico em que o Brasil se encontrava naquela época… Eu comecei o projeto do Pivô em 2010, quando havia um grande otimismo em relação ao futuro econômico e político do Brasil, era o auge dos anos Lula e o sistema das artes visuais foi bastante beneficiado nessa época. São Paulo passava a ser cada vez mais mencionada como um destino cultural interessante pela mídia internacional e eu senti, na época, que havia bastante espaço para pensar em novos modelos institucionais: tínhamos um mercado forte, uma cena institucional relativamente estável, porém pouco ousada e muito poucos espaços autônomos que fomentassem o pensamento crítico e a produção de conteúdo original; simultaneamente, também havia pouquíssimos programas de residência artística internacional, esse ponto se confirmou e pôde ser verificado através do grande retorno que tivemos na abertura do projeto: de público, mídia e sobretudo da própria comunidade artística.

O Pivô nasceu sob medida para o espaço que ocupa, não foi um projeto que foi desenvolvido antes, e buscou uma sede para realizar-se. Eu tomei contato com esse imóvel em 2010, fechado há cerca de 15 anos e totalmente deteriorado, e a partir daí surgiu a pergunta: que tipo de cidade deixa  ou deixa alguém deixar  um espaço de 3500 m2 abandonado em um dos seus edifícios mais icônicos, por tanto tempo? A ideia do Pivô partiu desse ímpeto de devolver ao uso público um imóvel tão singular que, por razões particulares, ficou inoperante por tanto tempo. Essa motivação, aliada à vontade de criar um espaço autônomo e sem fins lucrativos totalmente focado em artes visuais, foram os dois pilares iniciais do Pivô. Começamos com uma primeira ocupação, totalmente impulsiva, que reuniu 13 artistas e 1 curador em uma mostra que tinha como objetivo romper a letargia do lugar e informar à cidade que ali funcionaria um espaço de artes visuais permanente, isso foi em 2012. Ali não sabíamos como realizar essa empreitada, tudo foi acontecendo muito junto com essa primeira equipe e artistas, já na prática. O próprio espaço e esse convívio intenso do primeiro ano moldaram o pensamento institucional e o programa do Pivô, que até hoje segue em contínuo desenvolvimento e mutação.

JM / LS: É interessante comparar as dinâmicas fundadoras do Pivô com as da Kunsthalle Lissabon. Criámos a KL no contexto da crise financeira de 2008, que acabou por se revelar um pretexto ideológico para a tentativa de desmantelamento do estado social e das suas instituições. Parecia-nos que, de algum modo, estas últimas estavam claramente a falhar aos seus cidadãos e que era urgente pensar novos modelos de ação institucional.

Comparando o momento da génese do Pivô – simultaneamente uma resposta ao contexto político-social otimista da altura e uma resposta ao que significa ser e fazer cidade – com o momento atual, em que o otimismo parece ter desaparecido do horizonte brasileiro, achas que há alguma diferença no papel da instituição que criaste? Ou dito de outra forma, achas que os pressupostos curatoriais do projeto se modificaram como resposta ao contexto em que opera?

FB: Sem dúvida. O Pivô é profundamente influenciado pelo seu entorno. Esse ano completamos cinco anos de atividades, então naturalmente, aquele ímpeto inicial transformou-se bastante dentro da própria organização. As perguntas continuam mais ou menos as mesmas: Como desenvolver um programa consistente e relevante, não só para a própria comunidade artística, mas para a cidade de São Paulo, sem nenhuma fonte de financiamento minimamente estável? Como consolidar um projeto como esse sem replicar justamente as estruturas das quais ele se propôs a desviar?

Eu acho que agora o Pivô está próximo de um momento de transição. Nos últimos anos conseguimos criar uma economia interna mínima, que nos garante uma certa periodicidade de programação, com mostras realizadas dentro dos parâmetros mínimos que estipulamos para o desenvolvimento e execução de uma proposta artística (artistas e curadores recebendo honorários, equipe de montagem e acondicionamento, seguro dos trabalhos expostos, material gráfico bilingue, iluminação cuidada…), temos um grande alcance de público e divulgação, além de sermos capazes de manter nosso espaço físico em funcionamento e remunerar a equipe e colaboradores invariavelmente. No entanto, essa estrutura que já existe, apesar de instável, depende muito de uma certa mitologia do espaço (estar no Copan, com uma organização jovem, além de uma certa retórica do “laboratório artístico” e uma ética e estética próprias de um espaço autogerido) e do envolvimento pessoal e da personalidade dos seus gestores. A transição que eu acho necessária, nesse momento, é afastar conscientemente o projeto da mítica de sua criação e caminhar para um programa cada vez mais consistente, além de conquistar uma autonomia institucional e financeira em um momento tão complexo do país. Nesse caso, acho que temos em comum com a Kunsthalle Lissabon a ideia de produzir uma espécie de emulação institucional funcional, essa proposta de habitar as nossas próprias contradições, para quem sabe contribuir para a revisão de certas metodologias de trabalho e políticas culturais instituídas. Acho que atualmente precisamos mostrar que dá para fazer as coisas acontecerem, mesmo em condições adversas.

Meu grande desafio com o Pivô é achar esse ponto de equilíbrio entre a autonomia curatorial completa e uma organização institucional estável. Ou como manter o projeto viável economicamente, sem burocratizar demais seu funcionamento ou tornar o programa refém de uma estrutura pré-concebida (de mais fácil organização e planejamento) mas que eventualmente ameaçaria o que eu acho justamente a parte mais interessante e saudável desse modelo de trabalho: a flexibilidade para adaptar-se a estímulos variados e imprevisíveis, tanto dos artistas envolvidos quanto do próprio meio em que habita.

JM / LS: Nós também sentimos que um dos desafios mais importantes (existem outros, como é óbvio) passa por saber gerir essa tensão entre a necessidade de flexibilidade institucional e rapidez de resposta curatorial; e a pressão externa para o oposto, para uma estandardização e cristalização de procedimentos, abordagens e métodos de trabalho. De alguma forma, do ponto de vista da instituição e das condições de trabalho, a primeira acaba por representar a precariedade ou a auto-exploração, enquanto a segunda, ainda que não diretamente, está ligada àquilo que desejámos, a estabilidade laboral. A gestão dessa tensão, ou como mencionas, a criação desse ponto de equilíbrio, tem sido para nós um dos motores de desenvolvimento concetual, político e ético do projeto. E é a partir daí que a noção de amizade, como o produto principal da atividade institucional, é desenvolvida. Não vale a pena entrar em detalhes sobre esta construção, mas gostávamos de saber se, no caso do Pivô, houve algum desenvolvimento semelhante, ou seja, se conseguiste extrair um conceito de modelo institucional a partir das condições em que operas? Ou talvez esse movimento de análise, por um lado, e de síntese por outro, não faça sentido para o projeto?

FB: Sim, sinto algo semelhante. Eu geralmente penso no que é inegociável e tento fazer um exercício constante de ressaltar (tanto para mim, quanto para o programa e para toda a equipe) quais são as verdadeiras importâncias, as razões de fundo porque fazemos esse tipo de trabalho, e tento manter esse conjunto de premissas sempre vivo. É muito fácil cair numa espécie de automatização de procedimentos depois de um certo tempo de trabalho, o que é sempre arriscado e pode eventualmente afastar a prática, do discurso institucional. Várias vezes li a respeito e escutei histórias sobre o futuro inevitável de um espaço dessa tipologia: ou fechar, quando seus gestores  estão exauridos, ou institucionalizar-se, replicando justamente o que de início se propunha a desafiar. Eu acho muito interessante essa tomada de posição de vocês sobre a ideia de amizade em um contexto institucional como o nosso, é corajoso e honesto, sabemos que na maioria dos espaços de arte as relações pessoais têm um papel bastante importante, mas geralmente as pessoas tendem a esconder isso, talvez por medo de soar nepotista, ou não suficientemente aberto ao público ou à totalidade da comunidade artística em que se insere. Assim como a Kunsthalle Lissabon, o Pivô não é um órgão público, mas tem uma vontade disso em algum nível, é o que chamamos de uma organização privada de interesse público. Nunca fazemos exposições com o objetivo direto de atrair um grande público, no entanto, há sempre uma grande vontade de desmistificar a arte contemporânea como algo para iniciados ou para a elite cultural do país. Mas como fazer isso e manter a integridade das linhas curatoriais?

Para não desviar muito da sua pergunta, eu acho que grande parte do pensamento institucional do Pivô veio a partir do convívio com os artistas que habitam o espaço. Desde o início tivemos muitos artistas envolvidos, e atualmente, há cerca de 15 artistas em residência no espaço (temos 16 estúdios), o que faz com que tenhamos um feedback imediato sobre todas as propostas institucionais e curatoriais, e isso é muito rico. O Pivô é um território de testes há vários anos, e eu sempre me pergunto se vai deixar de o ser em algum momento. Não sei bem dizer.

Recentemente tivemos uma reunião de conselho e eu passei semanas pensando como registrar o que foi dito. Até então, enviávamos ao conselho uma ata detalhada do que foi discutido e uma síntese do que seriam os planos para o futuro do Pivô. Dessa vez, dando início a um processo de revisão geral da missão institucional e programa do Pivô, nos propusemos a testar um novo formato para esse documento. Substituímos o relatório detalhado e a ata, que talvez fossem um reflexo objetivo de uma organização institucional eficiente e séria, que garantia a manutenção da nossa credibilidade perante o conselho, por uma carta. Ao contrário da impessoalidade programática da ata, a carta necessariamente inclui duas coisas que têm me parecido muito mais urgentes e essenciais do que replicar uma lógica baseada no nosso incessante e automatizado impulso pela “realização”: a hesitação e o afeto. Eu acho que esse gesto, de revisão dos próprios documentos burocráticos do Pivô, revela que ainda há espaço para a experimentação e reflexão sobre a nossa própria configuração institucional.

JM / LS: É muito interessante falares em hesitação e afeto, quase como estratégias de humanização daquilo que tende a ser entendido como uma abstração burocrática. Isso é também uma linha de investigação que tem estado nas nossas cabeças há já algum tempo, mas sobre a qual não nos debruçámos a sério. Humanizar ao extremo a instituição. E com isto o que queremos dizer é, tratá-la como uma pessoa: perceber a sua personalidade, o seu género, o que é que ela (ou ele) gosta ou não gosta, onde e como se posiciona no espetro político, etc., etc. Já pensaste nisso em relação ao Pivô?

FB: Sim, também penso nisso constantemente. Talvez pela escala física do Pivô, há sempre uma preocupação com/sobre até que ponto é necessário padronizar e institucionalizar (mais literalmente) seu funcionamento.
Essa vontade que o espaço exista plenamente, para além da personalidade ou envolvimento pessoal dos seus gestores, é bastante forte. Para mim, a parte mais interessante de pensar o Pivô é tentar entender como podemos fazer para contribuir para uma espécie de revisão do funcionamento das estruturas que amparam as artes visuais no Brasil, e acredito que essa espécie de “performance” da instituição de que falamos, é importante nesse sentido, não só admitir o acaso, o erro e o afeto, mas gerar discussões a esse respeito. Há certas coisas que eu gostaria de fazer, mas a “personalidade” do Pivô não permite, eu aprendo diariamente com esse embate entre certos impulsos mais pessoais, ou autorais, a imagem institucional, a coerência do programa e seu papel na cidade.

JM / LS: Até que ponto o Pivô é independente de ti? Pode existir sem ti? Perguntamos-te isto porque, mais uma vez, é uma questão com que nos temos debatido. No nosso caso, a partir de certa altura começámos a interrogarmo-nos sobre se a KL possuiria autonomia institucional para continuar sem o nosso input? A determinado ponto, começámos a imaginar possíveis futuros extremos, como o seu encerramento, por um lado, ou a expansão e “mainstreamização”, por outro, com um edifício desenhado por um vencedor de um Pritzker, um orçamento monumental, etc., etc. No teu caso a questão do edifício icónico já não se coloca, porque já existe, não como resultado de uma expansão descontrolada, mas como condição fundadora. Mas como imaginas o futuro do Pivô?

FB: Eu espero que o Pivô possa seguir existindo sem a minha presença. Voltamos aqui para a mesma questão da autoria do programa e do pensamento institucional vs. institucionalização formal e, consequentemente, mais “rotativa”. Espero poder mudar a minha função no Pivô ao longo dos anos, deixar de trabalhar tão ativamente no dia-a-dia e passar a integrar o conselho, ou ter algum cargo mais relacionado com a manutenção de certos parâmetros éticos e metodologias de trabalho, que para mim são caros, e delegar mais a gestão e organização do programa. Eu acho que o Pivô como ocupação artística já não existe mais, a energia e a impulsividade do começo e o movimento inicial de devolver ao uso público um espaço tão icônico (fato que norteou os dois primeiros anos do programa), deu lugar a uma organização mais sistemática, um programa mais desenhado e uma economia interna um pouco mais estável. Essa segunda fase fez com que eu me dedicasse mais ao pensamento dos programas de exposição e residência, o espaço já existe e já funciona, e com isso ganhámos novas responsabilidades. A equipe do Pivô, no último ano, passou a seguir um caminho em direção à consistência da programação e do relacionamento com os artistas. Isso depende de uma certa desaceleração e de um investimento maior em pesquisa. É menos sobre o volume de projetos entregues e mais sobre mapear e pensar o impacto que podemos ter na cena da cidade com os projetos que escolhemos realizar. Esse cuidado maior com todo o conteúdo gerado (das exposições, textos, comunicação visual…) envolve, naturalmente, mais troca com outros agentes da cena das artes visuais. Passámos os primeiros anos correndo para construir a identidade do Pivô e suas relações institucionais, e acho que nesse momento precisei envolver-me integralmente, agora entrando no quinto ano, vejo que isso já está feito. O Pivô tem uma presença interessante no Brasil e internacionalmente.
Os programas estão estruturados e na parte mais “empresarial” também sinto que estamos em um momento de transição, mais no sentido de um movimento fluído do que qualquer tipo de quebra ou reinvenção.
Como sempre, o próprio espaço e o relacionamento da equipe com os artistas nos apontam os caminhos, esse é o aspeto que nunca muda no projeto, mas talvez seja interessante repetir essa pergunta daqui uns 2 anos…