Conversas sobre curadoria com Filipa Ramos

Kunstalle Lissabon, Filipa Ramos

João Mourão / Luís Silva: Pensamos esta série de conversas como uma forma de discutir formatos institucionais e modelos curatoriais distintos. No teu caso, e ainda que a prática curatorial ocupe um lugar menos central que a escrita, que acaba por ser uma forma privilegiada de te relacionares com a arte contemporânea, foste uma das criadoras, em conjunto com Edoardo Bonaspetti, Jens Hoffmann e Andrea Lissoni, do projecto Vdrome, um cinema online que apresenta um programa regular de filmes e vídeos realizados por cineastas e artistas plásticos. Podes contar-nos como surgiu a ideia do projecto?

Filipa Ramos: Sim, interessa-me muito a possibilidade de inventar sistemas que criem novas relações entre as ideias e as pessoas, o desejo e as imagens, a arte e o tempo, e nesse sentido a exposição não é de facto o formato que mais me interessa. Há cerca de cinco anos mudei-me de Londres para Milão, onde estava a sofrer de FOMO (Fear of missing out) radical. Sentia que uma parte fundamental da minha vida cultural tinha ficado amputada com esta mudança, ao mesmo tempo que estava a tentar mudar esta percepção – de que vivia numa periferia em relação a um hipotético “centro” – que me parecia um ponto de vista errado. Foi nessa altura que o Edoardo Bonaspetti – então editor chefe da Mousse – nos desafiou, a mim, ao Andrea e ao Jens (que entretanto já não faz parte da equipa do Vdrome) a iniciar um festival de cinema de artista em Milão. Apesar de acharmos que era uma boa ideia, desde os primeiros dias que ficou claro que o nosso interesse existia para além da criação de um festival com uma existência pontual e o que nos entusiasmava era a ideia de inventar um modo novo de circulação e distribuição de cinema de artista. Usámos um dos aspectos centrais da infraestrutura da internet, a sua ubiquidade e relativa facilidade de acesso. Desse modo, poderíamos chegar a muito mais pessoas, ao mesmo tempo, criar uma comunidade afectiva e não presencial. Esta era também uma maneira de ultrapassar esta percepção de termos de estar sempre no local certo e no momento certo para aceder em primeira mão a produções culturais de um certo nível. Foi assim que o Vdrome começou a dar os seus primeiros passos, afastando-se da possibilidade de se constituir como um evento pontual, localizado num contexto específico, e aproximando-se da ideia de se tornar num festival contínuo e transnacional.

JM / LS: O que dizes é bastante interessante, no que diz respeito à recusa explícita da “festivalização” das manifestações culturais. Há um certo movimento que vai na direcção da programação regular, como a das instituições (museus, centros de arte, cinematecas, etc.) para o evento (bienais, festivais, etc.). Criando uma relação muito mais emocional nos públicos e também, e talvez sobretudo, esse estado generalizado de FOMO (para usar um conceito bastante curioso e potencialmente produtivo que introduziste). Houve alguma intenção de contrariar, ou fazer uma crítica desta conversão? E consequentemente, encaras o Vdrome como um antídoto ao FOMO?

FR: Sim, o Vdrome surgiu como um antídoto ao FOMO. Nunca o tinha descrito desta forma mas foi exactamente essa a nossa intenção: criar um sistema para dar um acesso horizontal e uniforme a obras de arte de valor excepcional, cujo medium permitisse a sua distribuição e circulação em rede. Não o concebemos como uma crítica institucional. A nossa intenção nunca foi apontar o dedo à forma como na última década o sistema artístico abraçou as práticas temporais (performance e as suas declinações entre dança, teatro, lecture-performance, sound art, instalação, filme e vídeo) como estratégia para assegurar um retorno mais sistemático – de capital e público. Pelo contrário, a nossa iniciativa é estritamente optimista, acreditamos que é possível inventar uma modalidade de partilha que dispense a presença física num contexto específico. Queríamos, juntamente com muitos outros que também o estavam a fazer, a Kunsthalle Lissabon é um bom exemplo disso, dizer “não tens de viver em Londres nem em Berlin, nem sequer tens de ir uma vez por ano a Nova Iorque, para aceder ao que de mais excitante se passa no panorama do cinema de artista”. Não que o Vdrome se conceba como um substituto (não substituímos a experiência de ver um filme instalado no cinema ou num espaço expositivo) mas sim como uma forma continuada de fazer chegar filmes e vídeos de artista cuja distribuição é geralmente limitada a um par de exposições e a uns quantos festivais de cinema a uma audiência muito mais ampla. À ideia do festival periódico, nós propomos o festival permanente. Portanto, por um lado ir contra a ansiedade de não aceder a algo que se passa num lugar inacessível e por outro, alargar a circulação de obras que merecem ser vistas por mais pessoas.

LS / JM: Falas da recusa em ser um substituto, na medida em que o Vdrome não pretende substituir a experiência do filme no cinema ou no espaço expositivo. No entanto a nossa experiência de cinema tem vindo a transformar-se do “ecrã comunitário”, de uma comunidade temporária que se forma para partilhar a experiência do filme, para uma experiência mais atomizada, numa relação individual com o ecrã do computador, ou do telefone, ou de qualquer variante de dispositivo móvel de que nos temos vindo a rodear. Como é que o Vdrome se posiciona em relação a esta transformação? É simultaneamente um produto e um motor deste processo?

FR: Na minha opinião, actualmente ocorrem dois movimentos contemporâneos complementares, ainda que à primeira vista pareçam opostos. Por um lado, assistimos a um evidente declínio do espaço do cinema como fulcro de sociabilidade e entretenimento: cada vez mais, as pessoas preferem ver filmes em casa, no computador ou em ecrãs domésticos, sozinhas ou em companhia da família e amigos. Esta mudança veio transformar radicalmente a comunidade cinéfila: de um grupo alargado, em constante recomposição e reinvenção chegámos a um núcleo reduzido, íntimo, privado, controlável. Por outro lado, os festivais de cinema e o cinema de artista têm vindo a conhecer um crescimento evidente na última década, mostrando que há público interessado em ir ao cinema ou ao museu/galeria, orientado por um tipo de experiência que como em outros aspectos da nossa sociedade é largamente motivada pela noção do evento, de assistir a algo único e irrepetível. Ora, o Vdrome não é nem um serviço de entretenimento massivo em rede, nem um festival para a crescente comunidade de cinéfilos, nem um espaço expositivo. É uma espécie de estranha, pequena e agradável criatura que, tal como o Netflix entra na tua casa, no teu quarto, na tua cama e no teu telefone, mas por oposição e ao contrário, não te entretém. E tal como a galeria expositiva, o Vdrome acolhe-te no seu espaço, oferece informação complementar sobre o que estás a ver e tenta criar as condições de hospitalidade máximas para a visualização do que apresenta, estabelecendo também linhas programáticas que, apesar de ténues são constantes. Mas não te oferece a experiência do lugar. A única sensação háptica que o Vdrome produz é a planicidade do ecrã.
Isto para dizer que o Vdrome está sentado no limiar entre o consumo doméstico, atomizado, alienado e a experiência da maravilha que esperamos que ocorra quando visitamos uma exposição ou um museu. Idealmente, levar-te-á de uma para a outra.

LS / JM: Vdrome estabelece com a sua comunidade de utilizadores (será este o termo certo para descrever o público do Vdrome?). Duas perguntas surgem imediatamente na nossa cabeça: como é o processo de selecção de filmes e vídeos? Já pensaram em produzir os vossos próprios conteúdos? Ou dito de outra forma, já equacionaram passar de plataforma de apresentação para plataforma de produção, através de encomendas específicas?

FR: Não somos uma app ou um jogo, nem requeremos um login. Concebemos as pessoas que nos visitam como uma audiência, um público, tal como no cinema. Da mesma forma, os filmes que escolhemos não estão necessariamente relacionados uns com os outros, embora existam temas, critérios e abordagens que nos são caros e que continuam a aparecer como possíveis respostas às perguntas que nos preocupam: o futuro do cinema; a relação triangular entre a inteligência humana, animal e tecnológica; a invenção de novos formatos e narrativas; a articulação idiossincrática de ideais emancipatórios e progressivos. Practicamente o processo de selecção assenta no consenso: basta um de nós não aprovar um vídeo, geralmente por achar que não tem qualidade ou relevância, para não o mostrarmos. 
A metodologia de pesquisa baseia-se num processo que combina os canais dos programadores de cinema e dos curadores de exposições, entre as descobertas realizadas em festivais de cinema, exposições e studio visits.
Quanto à vossa segunda pergunta, não nos interessa muito produzir obras, deixamos essa árdua tarefa aos produtores profissionais, mas por outro lado a possibilidade de comissionar obras novas atrai-nos muito. Mas por agora o nosso budget, disponibilidade e empenho não nos permite esse salto. Talvez no futuro…

LS / JM: Falando de futuro, como imaginas o do Vdrome? O estado generalizado de hipérbole institucional em que nos encontramos, sugere apenas uma direcção: a do crescimento e expansão. Mas temos curiosidade, por razões que podes compreender, em saber como pensas o futuro do projecto, se nessa direcção de inflação e sobreprodução, se noutra e, nesse caso, qual?

FR: Pensando numa lógica puramente económica: para crescer é necessário investimento e capital, duas coisas que o Vdrome não possui. Cada um de nós desenvolve outras actividades e ainda que lhe dediquemos o máximo de tempo possível, combinamos o Vdrome com outras coisas que fazemos. Para o Vdrome crescer e se transformar noutra coisa será necessário um empenho muito maior da nossa parte e penso que, pelo menos neste momento, nenhum de nós tem a capacidade nem vontade para o fazer. Ao ponto de no último ano termos pago as despesas e custos de manutenção do site, newsletter, fees dos autores, etc., porque não tivemos disponibilidade para encontrar um subsídio ou sponsor. Ao mesmo tempo, esta independência dá-nos total liberdade para fazermos o que queremos, da forma como queremos e isto é fundamental para nos continuarmos a divertir. O nosso trabalho não é um gesto político anti-crescimento, nem uma teimosia anti-sistema, mas uma forma muito pragmática de lidar com uma escala realística entre prazer e o profissionalismo.