Conversas sobre curadoria com Óscar Faria

Kunstalle Lissabon

João Mourão / Luís Silva: Queremos falar contigo sobre o teu entendimento da curadoria enquanto campo disciplinar, e como esse entendimento se traduz na tua prática curatorial. Especificamente – porque vemos semelhanças e familiaridades – como é que essa tua prática curatorial funciona no contexto do Sismógrafo e como é que responde ao contexto e aos desafios que tu sentes que existem na cidade do Porto. Traçando uma genealogia abreviada, podíamos começar por te perguntar como é que surge o Sismógrafo e de onde vem a necessidade de criar este tipo de espaço no Porto? Considerando que há um historial muito rico de espaços independentes no Porto, que é completamente o oposto do que aconteceu em Lisboa, e lembrando que esses espaços eram geridos por artistas e não por curadores, o que levanta diferenças substanciais nas propostas e missões.

Óscar Faria: Não entendo a minha actividade de curador como sendo distinta das de crítico e de historiador. Umas informam as outras, contaminam-se. Gostava também de esclarecer que o Sismógrafo é um espaço de partilha fundado também por artistas, o Sebastião Resende, o Fernando Ribeiro, o Carlos Azeredo Mesquita, o Diogo Tudela e a Sara Rodrigues, uma designer, a Maria João Macedo, um coleccionador de arte, o Renato Pinto, uma médica geneticista, a Cláudia Reis, e um neurocientista, o Luís Jacinto, e um livreiro, Herculano Lapa, entre outros. Neste contexto, as minhas funções actuais são as de presidente da Salto no Vazio, associação sem fins lucrativos que gere o Sismógrafo, director artístico e curador. Sublinho essa especificidade porque as pessoas tendem a confundir muito o Sismógrafo comigo, quando este é um colectivo gerido sobretudo por artistas de várias gerações, que hoje incluem o Renato Ferrão, que fez parte do Salão Olímpico, o Sebastião Resende, o Pedro Huet, o Hernâni Reis Baptista, a Rita Senra, o João Pedro Trindade e a Filipa Jacques. Todos eles participam de igual forma na gestão do espaço. O Sismógrafo é este arco-íris muito variado de contributos. Contamos ainda com os voluntários que vão chegando. Alguns vão ficando, outros vão partindo, mas é esta vontade de partilha que existe no Sismógrafo, que fazemos questão que continue a acontecer.

JM / LS: Então aproximam-se de um modelo de funcionamento em cooperativa, que é uma ideia sobre a qual falávamos há uns tempos atrás. Não é o espaço de um curador, é um espaço também gerido por artistas.

OF: É uma associação cultural sem fins lucrativos. Ainda antes de nascer o Sismógrafo, a discussão era: vamos ser uma cooperativa ou uma associação? E acabamos por ser uma associação por exclusão de partes. E também por uma questão ideológica, não minha, pois havia a opinião de que a palavra cooperativa estava demasiado conotada com práticas pós-25 de Abril.

JM / LS: Mas voltando ao que o Luís perguntou, ou seja o porquê da criação deste espaço? Havia essa vontade de trabalhar em conjunto?

OF: Porque havia um vazio, não estávamos contentes com o que existia na cidade. Ou melhor, achávamos que a oferta cultural não era suficiente, que havia espaço para mais uma entidade.

JM / LS: Que vazio era esse?

OF: Era o vazio que foi passando pelas nossas vidas também, ou seja, o vazio de nos sentirmos disponíveis. Alguns reformados, outros desempregados. Havia também quem tivesse produzido trabalho a partir de experiências solitárias, efémeras. O vazio começa por ser nosso e depois passa a reflectir-se no vazio da cidade em que nos encontramos e inserimos. Havia pouca coisa. Para além de nós existia o Uma certa falta de coerência e o Maus Hábitos, e o Espaço Mira e a Rua do Sol estavam também a aparecer com outras características e outro tipo de ideias. A nossa intenção era dar outras condições de acolhimento às exposições, melhorar o tratamento gráfico dos materiais por nós publicados, revelar artistas de outros países. Discutimos o modelo sobretudo com amigos norte-americanos, alemães e canadianos, como a Julie Ault, o Jason Simon, a Amy Zion e o Heinz Peter Knes. Ainda estamos à procura de respostas…

JM / LS: Achas que era um passo no sentido da profissionalização?

OF: Já somos quase todos profissionais, mas talvez possamos falar de profissionalização de um espaço independente. Tendencialmente sim. Agora com os vários apoios que temos tido, nomeadamente com o apoio do Criatório no Porto, no ano passado, e da DGArtes, este ano, estamos a criar condições para essa tal profissionalização, que nos é exigida.

JM / LS: Com o apoio vêm uma série de exigências e responsabilidades…

OF: É preciso não esquecer que durante estes três ou quatro anos o espaço foi pago por doações dos elementos do Sismógrafo. Estes contributos serviram não só para pagar a renda do espaço que ocupamos no Porto, na Praça dos Poveiros, mas também a água, a luz, as fotocópias, a folha de sala… Tudo isto foi sustentado por um conjunto razoável de pessoas que permitiram criar as condições de arranque e manutenção do nosso programa durante os primeiros anos do Sismógrafo. É importante entender que para além de apoios pontuais, como o da Gulbenkian, do Goethe Institut ou de algumas instituições internacionais – quando se tratava de artistas que vinham de fora – tudo saiu do nosso bolso. Trabalho voluntário, não remunerado e com exposições abertas ao público, gratuitas. E isso é impagável. As pessoas às vezes não têm consciência da forma como as coisas acontecem.

JM / LS: Mas achas que é importante criar essa consciência nas pessoas?

OF: É muitíssimo importante. As pessoas estão muito habituadas à cultura como um acto gratuito. Sou igualmente favorável à gratuitidade no território da cultura, mas é preciso que as pessoas tenham consciência do valor do trabalho que isso implica. Acho que há uma distracção, usando as palavras do Foucault, há uma menoridade que é preciso superar.

JM / LS: Voltando ao facto de não separares os campos entre a curadoria e as outras áreas. Tens um dos percursos mais idiossincráticos no país. Passaste pela crítica de arte no Público, pelo jornalismo cultural, estiveste numa galeria comercial enquanto director artístico, a Quadrado Azul, estás agora na academia e num espaço que vamos, por facilidade, chamar independente. Fizeste exposições institucionais e gostas de futebol. No teu percurso passas por muitos modelos, como é que te posicionas em cada um deles?

OF: Já é muito tempo, de facto. Às vezes também não percebo muito bem. Em 1999, trabalhava no jornal Público, fiz a minha primeira curadoria. Trabalhei no Público até 2011, em diversas circunstâncias, no quadro ou a recibos verdes. Em várias fases, como jornalista, depois como crítico, tendo sido um dos elementos do conselho editorial do Ípsilon… Em 1999,  a convite do António Brás, um advogado meu amigo, organizei uma exposição para o INATEL chamada “Quartel: arte, trabalho, revolução”, que procurava colar-se às comemorações dos 25 anos do 25 de Abril. Não ganhei nada com essa exposição: preferi distribuir pelos artistas o orçamento que tinha para fazerem o seu trabalho. Foi uma experiência bastante interessante, acompanhada pelo próprio António Brás e pelo Pedro Rocha, hoje programador de música na Fundação de Serralves. Ocupámos o centro da cidade – lojas tradicionais, a estação de S. Bento, um apartamento, um bar, um café, etc. – com instalações de inúmeros artistas. A segunda experiência curatorial é de 2001, um projecto que fiz na altura para o Mil Folhas. Consistiu em ocupar durante um ano as páginas centrais do suplemento cultural do Público, com projectos especificamente feitos por artistas – de Dan Graham a Hamish Fulton, de Francisco Tropa a Susana Mendes Silva –, tendo daí resultado exposições na Biblioteca de Serralves, no Porto, e depois na Culturgest, em Lisboa. Em 2010, com o João Fernandes, organizei, também em Serralves, a colectiva “Às artes cidadãos”, da qual fazia parte o artista Danh Võ, de quem fiz a curadoria, em 2013, na Culturgest do Porto, da exposição “A asa de Gustav”. É por isso difícil separar os diferentes territórios onde me movo: a crítica, a curadoria, o papel de historiador. A idiossincrasia é isso mesmo: sermos nós mesmos, sem separação.

JM / LS: Não é uma palavra pejorativa.

OF: A minha vontade era ser crítico de poesia. Quando cheguei ao Público, uma série de circunstâncias fizeram com que terminasse a escrever sobre arte, uma área que também me interessava. De arte contemporânea, em 1992, nada sabia. Tinha passado pelo curso de História da Arte, na Faculdade de Letras, no Porto. Lembro-me que o artista mais próximo de nós que na altura se ensinava era Picasso. Tive que tomar uma decisão, ou ficava a fazer o percurso académico ou estava com os meus contemporâneos. Foi isso que decidi, ou seja, o jornalismo cultural e depois, lentamente, a crítica e a curadoria. Hoje a minha produção divide-se entre ensaios para catálogos, que escrevo com alguma regularidade, pelo Sismógrafo, e pela universidade onde estou a preparar uma tese de doutoramento acerca da obra de Álvaro Lapa.

JM / LS: O projecto para o Mil Folhas marcou-me profundamente. Eu era muito novo e foi muito importante, lembro-me de alguns que guardei muitos anos e a certa altura comecei a colecioná-los porque acho que são um site specific muito bem pensado que fazia todo o sentido, e acho que nunca mais se voltou a fazer nada assim.

OF: E vai ser muito difícil voltar a acontecer algo do género. Lembro-me
do Jorge Silva, dos silvadesigners, que desenhava o Mil Folhas, algo irritado pelo facto de durante um ano não ter as páginas centrais para dar azo à sua
criatividade. E também existia a dimensão económica do projecto, pois durante um ano o Público não podia usar as páginas centrais do suplemento para publicidade. O jornal ganhou certamente outras coisas. Não creio que seja hoje possível realizar algo semelhante.

JM / LS: E foi um projecto a longo prazo.

OF: Já no fim, aconteceu uma colaboração com a Ute Meta Bauer, comissária de “First Story – Women Building/New Narratives for the 21st Century”, exposição inserida no programa da Capital Europeia da Cultura, que decorreu na altura na Galeria Municipal do Porto. Foi um encontro muito profícuo, do qual resultaram seis publicações desenhadas por Regina Möller, uma designer e artista alemã, que esteve a trabalhar na redacção do Público e a produzir as páginas que depois foram incluídas no catálogo da exposição. No fundo, tratou-se de aproveitar esse acontecimento, o Porto 2001, para convidar alguns artistas a produzirem obras especialmente para o Mil Folhas. Lembro-me das visitas e das conversas com o Lothar Baumgarten, o Hamish Fulton, o Dan Graham, a Lívia Flores, a Tatiane Trouvé, o Artur Barrio… Dos portugueses, foram tantos os participantes: a Susana Mendes Silva, o Alberto Carneiro, a Leonor Antunes, a Isabel Carvalho, o Rui Chafes, o Pedro Cabrita Reis, o Nuno Jeremias Ramalho, o Fernando Brito, o João Pedro Vale, o Julião Sarmento, a Helena Almeida e o Francisco Tropa, que fez a duplicação das páginas que estavam no reverso. Houve telefonemas para o jornal, a perguntar se havia um erro de impressão… Fiquei muito satisfeito com o resultado e depois com as exposições que mostravam todo o processo deste projecto.

JM / LS: Tu guardas esses exemplares?

OF: Não, não guardo nada. Nem sequer os textos. Se me pedirem não tenho sequer a colecção das minhas entrevistas…

JM / LS: Os textos entendo, mas os projectos de artistas.

OF: Acho que estão guardados em Serralves. Devem ter ainda muitos dos projetos em depósito… O desenho da exposição foi realizado pelo Carlos Bártolo. O seu trabalho foi fundamental para se mostrar o processo. Creio que nessa exposição apresentámos o último trabalho feito pelo Juan Muñoz. O texto que escrevi na altura foi-lhe dedicado, um dos grandes homens que conheci na minha vida, muito inteligente.

JM / LS: Agora, voltando ao Sismógrafo e ao modo como vocês estão a operar na cidade. Como é que vês esta mudança que está a acontecer no Porto, vemo-la aqui, mas sabemos que no Porto também está a acontecer. Como é que se posicionam em relação aos novos agentes que estão neste momento a mudar-se para Porto e a escolher a cidade para viver?

OF: Nós organizamo-nos e funcionamos de uma forma muito orgânica. Por exemplo, o Pedro Huet e a Sara Graça, começaram a aparecer muito no Sismógrafo. Eu interessei-me por ver o trabalho deles e neste momento temos o Pedro Huet na equipa do Sismógrafo. Com o João Pedro Trindade e a Rita Senra, dois dos novos nomes que estão connosco, também foi assim. Estamos muito próximos de Belas-Artes, o que não quer dizer que no futuro continuemos, porque vamos sair daquele espaço no fim do ano. O prédio foi vendido, tínhamos um contrato de 5 anos, renovável, mas o novo proprietário não renovou. E não vamos conseguir permanecer na baixa da cidade, porque as rendas subiram muito.

JM / LS: Sim, por isso é que perguntávamos. Porque quando começámos tínhamos um contexto completamente diferente, Lisboa e o Porto mudaram muito nestes últimos anos.

OF: Olhamos os desenvolvimentos que vão acontecendo na cidade de forma crítica. Há coisas que vemos como positivas, como por exemplo o Criatório, que é um concurso público. A Câmara Municipal do Porto (CMP) está a ter um investimento muito forte nesta área, e ainda é cedo para definir uma opinião sobre aquilo que vai resultar. Por exemplo, há uma comissão de compras
de obras de arte, um colectivo de reflexão curatorial chamado PLÁKA; e uma exposição que irá acontecer na Galeria Municipal, chamada Anuário, desenvolvida por um comité de curadores, que vão tentar levar para essa mostra aquilo que de mais significativo aconteceu na cidade no ano anterior. Ainda não há distância para se perceber qual o alcance destes projectos da CMP, e é ainda cedo para se avaliar os resultados da nomeação recente de João Ribas para director artístico de Serralves. Acho, porém, importante que as pessoas ligadas às instituições como Serralves ou à CMP, marquem a sua presença no terreno, junto da comunidade dos artistas. Às vezes constatamos essa ausência.

JM / LS: Mas achas que essa ausência é desinteresse?

OF: Não faço ideia, mas muitas vezes constata-se essa ausência. Não sei as razões, não quero especular. No Sismógrafo, projecto muito vinculado a artistas, sentimos essa ausência de feedback. Uma falha que se pode estender ao estado da crítica no nosso país. Para nós simplesmente inexistente.

JM / LS: É um europeísmo, mas acho que é mais global, há um desinvestimento da crítica que acaba por ser um reflexo das transformações pelas quais o mundo passa. Mas o que tu disseste agora mesmo é bastante interessante, sobre estes dois pólos estruturantes da arte contemporânea no Porto, por um lado Serralves e por outro a CMP.

OF: E há um terceiro: a Culturgest. Não falei da Culturgest porque não tem investido no Porto da mesma forma que as outras duas instituições que estão sediadas no Porto. A Culturgest tem a sua sede em Lisboa e acho que poderia fazer uma programação mais activa e intensa no Porto, ou por exemplo a EDP, que tem uma belíssima sala de exposição, não percebo porque não dá  continuidade com mais energia ao projecto. Mesmo o Centro Português de Fotografia tem a sua programação hoje muito mais tradicional e menos activa no campo da contemporaneidade…

JM / LS: Mas nesse contexto, e é interessante que estejas a mapear as condições que existem hoje no Porto, queria perguntar-te: tendo em conta estas especificidades que descreves – as incertezas relativamente à nova direcção Serralves, as incertezas relativas à CMP porque ainda não teve tempo suficiente de trabalho – qual é para ti o papel que o Sismógrafo cumpre neste xadrez?

OF: O papel que nos quiserem dar. Se não nos quiserem dar nenhum papel, então cumprimos o papel que exercemos actualmente. O Sismógrafo faz muita coisa, faz exposições, publicações, concertos de música improvisada, sessões de leitura, de poesia. Nós já fazemos muito, se nos derem outras condições faremos mais e melhor. Se não nos derem mais condições, por acharem que não as merecemos, faremos o que nos é possível fazer. Não estamos à espera das instituições para fazer o quer que seja.

JM / LS: A forma como tu programas ou respondes vai ter em conta o que acontece nos outros espaços?

OF: Francamente não sabemos o que vão expor essas instituições. Temos uma programação pensada a dois anos que é muito intensa, são cerca de 10 exposições por ano, ou seja, desde o início já vamos com cerca de 45 exposições, a maior parte delas individuais. É uma programação que exige uma atenção ao artista, às condições de produção, etc. O apoio da DGArtes vai permitir-nos dar um primeiro salto, e estamos muito felizes por isso,
até porque ao longo dos anos há um desgaste inerente a este trabalho.
O Sismógrafo tem um papel crítico, que pensa a cidade e a cultura.

JM / LS: Mas achas que também passa pela oferta da diferença? Ou seja, há um conjunto de coisas que estão a passar ao lado, que as pessoas não estão atentas. Achas que é importante para o Sismógrafo chamar atenção para essas coisas, mostrando-as?

OF: Nós mostramo-las porque achamos que são relevantes. Acho que fazemos a diferença, senão também fechávamos a porta.

JM / LS: Mas existem muitos projectos a reproduzir os circuitos que já estão instituídos.

OF: O nosso programa expositivo não segue uma agenda: o género,
o pós-colonial, o antropoceno… Nós olhamos muito para singularidades e procuramos trazer aquilo que achamos que hoje é mais relevante e isso passa quer por mim, quer pelos artistas, ou seja, a partir de agora – algo que eu já queria fazer há algum tempo – a programação do Sismógrafo vai ter ainda mais diversidade. Vão surgir várias exposições com curadoria de diversos elementos do Sismógrafo. Tivemos uma exposição de um artista belga chamado Rik Peeters que teve curadoria do artista Pedro Huet; a Maria João Macedo propôs o nome da Isabel Carvalho e da Dayana Lucas para o próximo ano; o Thierry Simões propôs a Alexandra do Carmo, o Eduardo Petersen e a Armanda Duarte. Há cada vez mais essa necessidade de alargar o campo de escolhas e assim tornar o meu contributo idêntico ao de outros. Eu não seria o Óscar do Sismógrafo se não tivesse todas aquelas pessoas ao meu lado. E agora elas crescem por si e eu retiro-me da presidência da associação.

JM / LS: E o futuro? O que é que imaginas? Acredito que cada pessoa que faz parte do Sismógrafo tem uma visão muito específica do que pode ser o Sismógrafo. O que é que o Sismógrafo poderá vir a ser no futuro? Há este novo apoio da DGArtes, há uma mudança de espaço.

OF: Gostava muito que o Sismógrafo pudesse consolidar-se, e que essa consolidação passasse pelas condições de trabalho que damos aos artistas, à nossa equipa. Desejo igualmente dar continuidade ao trabalho de publicações, nomeadamente arrancar com uma colecção onde promovemos o encontro entre um artista e um poeta – ideia desenvolvida em colaboração com Paulo da Costa Domingos. E que surjam mais curadores, mais pessoas a escrever sobre arte. Somos um espaço aberto e receptivo ao aparecimento dessas pessoas. Sempre com vontade de promover uma instância crítica.

Gostava de partilhar uma citação de Michel Foucault, tirada do texto “O que é a crítica?”: “Na crítica ninguém é titular, ninguém é o teórico, a crítica universal e radical não existe, a crítica em si e por si só não existe, mas toda a actividade de reflexão, de análise e de saber no Ocidente traz consigo a dimensão da crítica possível, dimensão que é vista em simultâneo como necessária, desejável e útil em todo o caso e que dá insatisfação não pode limitar-se a si mesmo e por isso mesmo suscita desconfiança e justamente crítica, crítica amada e mal-amada, escárnio e escarnecido, as suas agressões são sempre atacadas por aquilo que ela ataca, pelo facto de ela só atacar a lei da sua própria existência é ela própria atacada, impaciência impacientemente suportada o que é então no Ocidente esta impaciência na maneira de ser e de pensar essencial e precária fugaz e permanente, esta obrigação sempre desconsiderada”. Eu acho isto muito pertinente, acho absolutamente necessário que existam estas instâncias críticas nas várias cidades, seja em Lisboa, no Porto, em Faro ou em Viseu…

JM / LS: Estavas a ler isso e estava a pensar se isso não poderia ser uma forma de descrever o Sismógrafo?

OF: Poderia, mas seria um exagero. Acho este texto muito bonito e é uma reflexão sobre aquilo que é o “papel do crítico” na sociedade, e por vezes esse papel não é entendido, sobretudo pelos poderes. Nesse sentido olhamos para o Sismógrafo enquanto instância crítica autónoma. Essa autonomia é absolutamente necessária para o próprio funcionamento de um contexto artístico.

JM / LS: Falta ao poder, enquanto entidade abstracta, mas falta também aos agentes do poder, em última instância falta-nos a nós enquanto cidadãos o entendimento do papel da crítica.

OF: O Deleuze dizia a propósito de Paul Klee “Há um povo que falta”. Falta as pessoas perderem o medo.

JM / LS: Se pensarmos nas instituições que criam os seus próprios públicos – vês isso como um trabalho do Sismógrafo, criar um público? Um público que seja crítico, que não tenham medo de pensar.

OF: Não é uma missão, mas é um desejo.

JM / LS: Quando falas, por exemplo da proximidade com as Belas Artes, há a vontade que este público mais novo, estes estudantes, apareçam no Sismógrafo?

OF: É para eles mesmo! Não é para a minha geração! Isto é uma maneira exagerada de falar, é também para a minha geração, mas é sobretudo para eles.

JM / LS: Então achas que há um papel mais formativo no Sismógrafo?

OF: Absolutamente formativo. Entendemos a pedagogia – o serviço educativo – ainda que com uma posição algo divergente, através da abertura de portas, do contacto directo com os artistas, o acompanhamento da equipa do Sismógrafo em processo de montagem. É um processo em aberto. Sentimos que em certos dias estamos a ter sucesso, e noutros, mais difíceis, menos. Mas sim, fazemo-lo para esse público e para a comunidade que queira participar.

JM / LS: E tens sentido uma grande diferença dessa comunidade no Porto? Como já a acompanhas há tantos anos.

OF: Acho que institucionalmente se elitizou.

JM / LS: Achas que isso é o resultado de algumas decisões que foram levadas a cabo, ou o de algumas políticas institucionais recentes?

OF: É o resultado do contexto geral da arte. Noto que em certos contextos a arte se está a elitizar, transformada por vários factores que vão desde factores políticos, económicos ou pelo marketing.

JM / LS: Sim, mas essa elitização pode ser contraposta com o argumento de que nunca tivemos tantas pessoas a ver exposições.

OF: As elites são muitas vezes populistas. Vejamos o exemplo de Serralves, quantas pessoas temos no Serralves em Festa? Todos os anos há novo recorde. Este é o lado populista de Serralves e depois há o lado elitista, o das inaugurações. Eu não gosto nem de um, nem de outro. Serralves já foi mais democrática do que é hoje, no tempo do Vicente Todolí ou do João Fernandes. Vejo com preocupação este balançar entre o populista e o elitista. Acho um enorme equívoco a exposição do Miró ficar na Casa de Serralves. Tudo por causa dos números, da ditadura dos números. Acho um erro o valor que se paga em Serralves, 10€ é um exagero, para aquilo que deveria ser tendencialmente gratuito. Tal como no Sismógrafo, vocês, na Kunsthalle, também têm as portas aberta e não cobram bilhetes.  

JM / LS: O que é bastante engraçado como nós, com os nossos orçamentos incrivelmente limitados, não questionamos a possibilidade de colocar um valor na entrada. Este é um princípio economicista que coloca entraves à participação, sendo que o dinheiro que depois gera é residual.

OF: Nós estamos no terreno e sabemos o quanto custa a vida a um estudante de Belas-Artes. Pasolini num texto chama atenção para o novo fascismo dos intelectuais – tive o primeiro contacto com esta opinião no LP “Divergências”, numa conversa gravada com o sociólogo Paquete de Oliveira. Vejo com preocupação as actuais opções da administração de Serralves, instituição com a qual aprendi muito. Vejo que hoje não há tanta facilidade de acesso como aquela que eu tive. O meu modo de fazer curadoria foi muito influenciado pelo Vicente Todolí e pelo João Fernandes. Com o Álvaro Lapa tive uma amizade marcante, que foi também uma aprendizagem sobre o contexto artístico do Porto, que é muito estranho, principalmente para mim que pertenço à classe média.

Lembro-me de estar a jogar futebol no liceu, e perceber que o desporto promove um espaço que ajuda a romper com o meio social de onde somos provenientes. Era ali, no terreno de jogo, onde me sentia bem, pois podia jogar quer com um colega de uma família com posses, quer com um colega de um bairro social. Romper com o meio, pelo meio, pela criação de um novo território, autónomo: um espaço público “desmercantilizado”. Desde essa época, no fim dos anos setenta, penso que devem ser criadas, em qualquer esfera da nossa existência, as condições para que as diferenças sociais sejam superadas. Se calhar, o trabalho do Sismógrafo surge enquanto forma de tentar esbater as distinções económicas no território da cultura.

JM / LS: São incríveis as estratégias que arranjamos para pensar e agir sobre coisas que nos preocupam, sejam elas questões sociais, ou outras. Os modos de encarar a arte são formas de dar respostas a preocupações.

OF: Há uma dimensão que me preocupa na arte – a violência – que não é muito falada. Há um regime de violência, que passa pela exclusão. Há também muita mágoa. E essa violência poderia ser combatida se houvesse uma maior aceitação das diferenças. Podia ser um primeiro passo para se tentar chegar a uma pacificação no nosso meio.