Editorial #4

Flávia Violante, Rita Salgueiro

The plot thickens…

 

Chegamos ao 4.º número e ao fim de mais um ano. Um dos objectivos genéricos está cumprido, publicar dois números em 2017. Pode parecer pouco para quem avalia segundo um esquema mental marcado pela bitola da produtividade. Mais = Melhor. Mas melhor para quem? Se a aceleração é a norma, assumimos uma posição quase artesanal. Fazemos revistas.

Neste número falam mais os artistas! Em primeiro lugar, procurámos um autor que tivesse uma proximidade geracional e afectiva com a obra do Pedro Neves Marques. A tão ambicionada distância crítica parece-nos cada vez mais um embuste. André Romão sugeriu Pedro Barateiro e o resultado é muito pertinente: um artista que reflecte sobre o trabalho de outro – um olhar de dentro – de quem partilha o mesmo ofício e cruza interesses. A exposição Aprender a viver com o inimigo levanta questões da máxima actualidade política, social e ambiental e Barateiro questiona com precisão qual o lugar da arte nessa discussão.

Continuando, Sofia Nunes sugeriu colocar a dupla Sara & André a escrever na primeira pessoa (acontecimento raro) sobre a experiência curatorial que desenvolveram na Zaratan; e Sabrina D. Marques propôs um diálogo com a jovem Tatiana Macedo, em que ambas olham retrospectivamente para um conjunto de obras reunidas em livro e em exposições.

Já em reflexão directa, aprofundada e em continuidade, propusemos que Daniel Peres escrevesse sobre o trabalho de Paiva + Gusmão (especificamente sobre as exposições deste ano, em São João da Madeira e em Lisboa). No campo das publicações, contamos com a recensão crítica de Gerbert Verheij ao livro Arte. Crítica. Politica coordenado por Nuno Crespo; e David-Alexandre Guéniot escreve sobre os Ghost destacando a edição como experiência, num belíssimo texto com o qual nos identificamos particularmente.

Chegamos a este momento com vontade de seguir novos caminhos. Estabilizámos um modelo de publicação que pode ser continuado com flexibilidade. Em 2018 queremos abrir o foco. Falámos sobre essa vontade com o João Mourão e o Luís Silva, que rapidamente propuseram uma conversa sobre curadoria com Fernanda Brenner, directora do Pivô, em São Paulo. A ideia encaixou-se perfeitamente no que pretendíamos: dar início a um alargamento de relações, em articulação com outros posicionamentos geográficos.

Mais ajuda veio dos trópicos. Não por acaso, Marta Mestre, que assina o primeiro texto, escreve sobre a actualidade brasileira, trazendo à memória “o exercício experimental da liberdade” nas palavras de Mário Pedrosa.

Iniciámos este editorial com uma questão “para quem?”. Porquê tanta pressa para fazer mais e mostrar mais? Para que público se trabalha e como? O núcleo de perguntas tenta encontrar, sob perspectivas diferentes, algumas opiniões.

Por fim, o encarte é assinado por Pedro Henriques. Perante a instalada aceleração de produção e consumo – industrial, mecânico, tecnológico, digital – aqui o gesto da mão sobrepõe-se à normatividade.

 



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