Editorial #5

Rita Salgueiro, Flávia Violante

Como referimos no editorial do último número, consideramos cada vez mais importante pensar a Re.vis.ta através de outros ângulos e perspectivas geográficas. Portanto, este quinto número propõe uma deslocação: saímos de Lisboa, a cidade que sempre nos serviu como ponto de partida. Ocupámos os primeiros meses deste ano com viagens a Évora, Guimarães, Porto e Coimbra. Fomos com vontade de ver e conversar com quem trabalha a partir de diversas escalas, sobre projectos que admiramos. Sublinhamos que este movimento não implica de forma alguma uma ideia de mapeamento exaustivo do panorama artístico nacional, ou sequer uma tentativa nesse sentido. Inevitavelmente, procedemos a uma selecção, ainda que sem a orientação de uma lógica valorativa ou de representação. Interessaram-nos antes as possibilidades de reflexão que cada texto, autor, tema e instituição convocam. Assim, não nos propomos fazer o ponto de situação de uma cidade ou sequer discorrer sobre a tão recorrente noção de descentralização que pulula os discursos estatais sobre o campo cultural.

Por ordem de viagens e convites: contamos uma vez mais com a Mariana Mata Passos, membro da associação cultural Pó de Vir a Ser, que nos falou de Évora e do Matadouro, um espaço com longa história, nova programação e residências. Daniel Peres problematiza o Centro Internacional das Artes José de Guimarães a partir da conversa que desenvolveu com Nuno Faria e Tiago Almeida, quando gentilmente nos receberam. No Porto, segundo polo artístico em Portugal e cidade que mais textos congrega neste número, reunimos com Pedro Bismark, que nos fala da cidade e aponta para um programa neoliberal, geralmente omisso no discurso da gentrificação e turistificação. Conduzida por Luís Silva e João Mourão, a conversa sobre curadoria é realizada com Óscar Faria, um agente activo do Porto que nos últimos anos tem acompanhado de perto as transformações da cidade, dando-nos o seu ponto de vista que passa inevitavelmente pelo trabalho desenvolvido no Sismógrafo e a quem agradecemos ainda uma interessante visita a outros espaços na cidade. Sobre o Museu de Serralves, o convite só aconteceu recentemente e privilegiando uma lógica de proximidade. O artigo assinado por Eduarda Neves aborda a mais internacional e possivelmente cada vez menos local, instituição de arte contemporânea em Portugal. Ainda sem visita marcada, aproveitámos que Gerbert Verheij vive em Montemor-o-Novo, onde conversa com Tiago Fróis, das Oficinas do Convento para em retrospetiva falar dos 25 anos de actividade de uma plataforma que proporciona condições de criação artística singulares. Aproveitando os conhecimentos do lisboeta Luís Mendonça sobre a exibição de cinema em território português, publicamos um inteligente exercício que questiona a relação do cinema com centros e periferia, e a forma como a quantidade pode não ser sinónimo de qualidade. Como sempre a Re.vis.ta abre com um texto que promove um olhar de cruzamento. A investigadora / curadora Sofia Lemos explora o conceito de exposições como diálogo, que agora experimenta no Porto. Finalmente, de Coimbra chega-nos uma resposta sobre o popular curso de curadoria e uma visão da Bienal Anozero via Círculo de Artes Plásticas de Coimbra.

Dos 5 números que já editamos, este é sem dúvida o que ganha uma dimensão mais politizada. Como prevíamos, essa dimensão emerge de forma orgânica por via da reunião dos textos, mais do que pela imposição de uma matriz editorial. Agradecemos ainda ao Bruno Borges um encarte de dupla face, em serigrafia, produzido na Oficina Arara.



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