Escolha de: João Tabarra

João Tabarra

TPC. Tema Livre

Foi com muito prazer que aceitei o amável convite para escrever ou tentar escrever um texto para a Re.vis.ta #6. Confesso que estar em frente ao computador com a proposta “Tema Livre” é muito mais difícil do que imaginava, mas vou tentar.

Sou artista visual, desde finais dos anos 80. Para tal – e vindo de famílias pobres, que não entendiam porque raio queria ser essa coisa de artista – a solução foi a fuga de casa, aos 17 anos, e até agora. Mas tudo tem um começo ou uma razão de ser ou de acontecer, mesmo que só anos mais tarde venha a começar a compreender o que faço, o que fiz e continuo a fazer.

Desde muito novo, a minha grande paixão esteve sempre relacionada com a imagem, principalmente com o cinema. Pergunto-me se o facto de a minha creche ter sido o Cinema S. Jorge terá algo que ver com isto… provavelmente, mas nunca o conseguirei afirmar como uma clara confirmação.

Assim e desde esses mais tenros anos, o cinema assumia-se como um espaço de felicidade, de liberdade, direi. Claro que, ao longo dos anos, aprendi a ver, coisa que não é nada fácil, mas que (e aqui posso afirmar) me abriu caminhos e impôs uma curiosidade por aprender que perdura até hoje. A câmara, a narrativa visual ou sonora que raramente consigo separar, a dramatização, a estrutura do filme, a atenção à montagem – e o que se mantém em mim e sem me aperceber disso conscientemente, pelo menos nos trabalhos de início: o ritmo, a atenção ao espaço, à gravidade e a insistência em lutar sempre por um campo de investigação com a imagem, o que ela representa, a sua porosidade, a sua força, a sua ligação ao permanente questionamento do contemporâneo. Encontrei e tenho vivido num espaço de liberdade, que me leva a dizer que o que tenho tentado fazer ao longo destes anos enquanto autor, é permanecer num campo de procura crítica, fugindo de doutrinações à la mode – vivo no que chamo de “impossibilidades possíveis”.

A princípio, trabalhei fortemente e quase exclusivamente ligado à fotografia. Estudei no Ar.Co, em Lisboa, e cedo comecei a propor exposições. Mais tarde, como queria continuar e aprofundar os estudos na área de imagem, visitei algumas universidades, as quais muito rapidamente entendi rejeitar. Ressalvo que falo de há muitos anos atrás: agora, felizmente e mesmo com a subsistência de muitos problemas, a realidade é bem outra, principalmente no que se refere à oferta de cursos.

Felizmente, cedo tive a oportunidade de conhecer pessoas, artistas, escritores, que me incentivaram a continuar. Foram e serão sempre pessoas a quem muito devo pela sua confiança e pelos caminhos que me mostraram.

Portanto, é um facto, nunca frequentei universidades, o que me deixou o caminho livre para aceitar convites para viver e desenvolver trabalho fora de Portugal. As minhas escolas foram, assim, os Museus, o Cinema, a Poesia, a Filosofia, e a sorte, que perdura, de me cruzar com pessoas maravilhosas a quem estou profundamente grato.

Mais tarde, a necessidade de experienciar a imagem em movimento levou-me a trabalhar, com fotografia, com instalações onde o filme se impôs como um campo de complementaridade e de relevância. Gostaria de clarificar que nunca aceitei a ideia de ser um “vídeo-artista”, embora me tenham colado por vezes esse rótulo. Nunca acreditei e nunca aceitei a ideia de usar um termo vindo de um meio que usava, até por razões económicas, como autor. Não sei, pergunto-me às vezes se será da idade, mas comecei a trabalhar com betacam, com VHS, superVHS, etc., e nunca fui um “betacam artist” ‑ simplesmente recuso o termo, não faz sentido. Terá feito, sim, num curto período, nos anos 70, nos EUA, onde um grupo abraçou esta nova técnica e produziu trabalhos de vídeo‑arte. A partir daí, e para mim, simplesmente não faz sentido.

Gradualmente, comecei a fazer os primeiros filmes e, para minha surpresa, comecei também a receber convites para participar e apresentar esses trabalhos em festivais de cinema ou em universidades, nos departamentos de cinema. O mais recente filme que realizei foi apresentado no Athens Avant‑Garde International Film Festival do ano passado. No entanto, e com toda a sinceridade, devo esclarecer que sinto ainda nunca ter feito um filme – talvez um dia consiga.

Reflectindo, talvez, o modo como tenho escolhido viver, apraz‑me a esquizofrenia profissional em muitos dos convites que recebo: sou chamado de artista visual, de realizador (até de arquitecto, mas este é certamente apenas um erro na mailing list), em Portugal, insistem em endereçar correspondência a um tal Senhor Doutor Artista João Tabarra – não sou doutorado, como já mencionei, mas são momentos de grande risota, pelos quais agradeço.

Em 2012, na sequência da participação enquanto júri no doclisboa, conheci duas pessoas que se tornaram queridos amigos e figuras incontornáveis na minha vida. Um é o realizador Andrei Ujic; a outra é Nicole Brenez, que se tornou uma espécie de mentora e com quem continuo a trabalhar.

Em 2014, os dois visitaram a minha primeira exposição antológica no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. Muitas foram as conversas em torno dos trabalhos expostos e, daí resultou também a descoberta de algo como um fio condutor que, de alguma forma, unia os campos de investigação a que, sem dar conta, sempre voltei – mais complexos, claro; a vida ofereceu‑me esta oportunidade.

Reconheci no meu trabalho uma declarada influência cinéfila ou cinematográfica, uma insistência no questionamento do equilíbrio, da gravidade, da queda, do político, da extinção – e a eterna pergunta de pertencer a que terra (leia‑se o questionamento permanente de espaços potenciais, onde a estranheza de ser o que chamam humano me permitia ser lugar, entender o biótopo, questionar a minha animalidade, ser eu na evitabilidade de ser o outro ao mesmo tempo).

As questões continuam, aprofundam‑se, contradizem‑se, criam espaços de “acidente” e, felizmente, o contemporâneo nunca deixa de nos questionar.

Em suma, o que posso dizer é que, passados estes anos, cheguei a uma palavra, uma palavra gigante: “Generosidade”. Ao longo dos anos, tenho sido convidado para conferências, workshops, seminários em várias universidades, em vários pontos do mundo – ocasiões que sempre me trazem um acumular de experiência (para além de me parecer divertido o facto de nunca ter frequentado a universidade e acabar por ser convidado a trabalhar com alunos das mesmas). E isto conduz‑me, de algum modo, ao momento presente.

Há uns anos, foi‑me sugerido que considerasse leccionar no departamento de Media Arts na Universidade de Karlsruhe, na Alemanha. Recusei a ideia algumas vezes, até que, por fim, cedi à persuasão e enviei umas “coisitas” poucas, à laia de candidatura. Vim a saber que o concurso para a vaga em questão, para substituição do professor Isaac Julien, tinha cerca de 400 inscritos – altura em que, como bom português, ao ver tal número, arrumei mentalmente o assunto. Passados escassos meses, recebo um telefonema, num inglês muito germânico, que me informava que eu constava de uma short‑list de candidatos apurados e me perguntava se estaria interessado em ir à Karlsruhe apresentar o meu trabalho. A estupefacção foi total mas lá disse que sim: o “julgamento” ocorreu em princípios de 2016 e, passados dois dias, recebo uma carta a comunicar‑me que tinha sido seleccionado. Aceitei – e é assim que, desde 2015, sou professor na Karlsruhe University of Art and Design, no Departamento de Media Arts, no qual lecciono Moving Images.

Houve, claro, alguma estranheza inicial: nada de grave, apenas o sentido de responsabilidade de procurar proporcionar aos alunos os melhores conteúdos possíveis, que viessem ao encontro do que os estudantes desejavam – e foi, para eles também, uma surpresa, o facto de lhes ser perguntado o que queriam, o que procuravam investigar. Contudo, eles e eu, depressa nos ambientámos a esse modelo dialogante, em que os estudantes se sentem co‑responsabilizados pelas suas escolhas de temas e pelos contributos que trazem, até na forma de oradores convidados, à sua investigação e discussão.

Mais dura terá sido, a adaptação ao que aqui chamam de café – compensada, todavia, pelo elevado civismo nas ruas e pelo silêncio desta cidade de média dimensão. A única parte difícil são as saudades da família. De resto, adorei voltar a andar de bicicleta e em transportes públicos pontuais. Abracei com entusiasmo este projecto e este novo momento, que me tem trazido todos os dias grande felicidade e desafios constantes, a nível pessoal e profissional.

A universidade dispõe de meios e condições notáveis. Integra‑se num edifício onde funcionam dois museus, um dos quais, o ZKM | Zentrum für Kunst und Medien Karlsruhe (ZKM | Centro de Arte e Media de Karlsruhe), resultante do sonho e da decisão de Heinrich Klotz, o visionário fundador da Universidade. Tem sido um grande privilégio poder conhecer e trabalhar com pessoas como o filósofo Peter Sloterdijk, Borys Groys, Andrei Ujic , ou o dramaturgo e realizador Razvan Radulescu, ligado ao nascimento do Novo Cinema Romeno, entre tantos outros. A universidade recorre, felizmente, a autores de variadas áreas que são regularmente convidados a dar palestras ou desenvolver trabalhos com professores e estudantes, num ritmo impressionante de produção de conhecimentos e experiências.

Desde 2015, nunca me senti emigrante – nem “expatriado”, na sua declinação mais chique. Sinto‑me na minha casa, na minha cidade, com as vantagens adicionais de não ter qualquer contacto com os lobbies e o “amiguismo” que marcam boa parte dos meios artísticos e de estar perto de tantos países que me têm proporcionado oportunidades relevantes para poder continuar a desenvolver o meu trabalho.

Impressiona, ainda, a liberdade que se experimenta nesta Universidade: aberta dia e noite aos estudantes e professores e, durante o dia, ao público em geral que por vezes a visita ou dela tira partido como atalho no caminho no seu dia‑a‑dia. Vim para 2 anos; pediram‑me que ficasse mais 3; depois, logo se verá.

Vivo, portanto, neste vai‑vem entre Alemanha e Portugal. E mal sabia eu, ao aqui chegar, que, graças aos meus queridos estudantes e colegas, se desenvolveria em mim uma profunda afeição por ensinar, lutando tenazmente contra o ensino como doutrinação e procurando desenvolver, da melhor forma que consiga, o despertar de um sentido crítico e de responsabilidade nos e com os estudantes.

Nada disto, convirá dizer, diminui o laço emocional que me liga a Portugal. Será porventura estranho sentir saudades de estar aqui quando estou em Lisboa e vice‑versa. Sinto saudades do rio Tejo – mas a Lisboa onde nasci, em Alfama, e onde cresci, essa torna‑se cada vez mais difícil de reencontrar, a cada retorno: esquiva‑se para a memória e para os recantos que ainda não vêm nos guias.

Passei, entretanto, a ser residente alemão. Sou cidadão português mas é aqui que pago os impostos, tendo encontrado uma relação entre o Estado e o Contribuinte baseada mais no respeito que na suspeição. Triste, talvez, mas é o que é.

Quando me pediram este texto, falaram‑me em “autores que viveram ou estão fora de Portugal”. A bem da verdade, nunca me senti fora de Portugal. A famosa expressão de “o lá fora” nunca a percebi – talvez menos pela expressão em si que pelo “cá dentro” que a mesma pressupõe. Como artista, nunca senti a pátria como marca de nada. E talvez seja essa uma das maiores vantagens de ser onde estou.


true lies and alibis, aula de João Tabarra na Staatliche Hochschule für Gestaltung Karlsruhe © João Tabarra.


Staatliche Hochschule für Gestaltung Karlsruhe © João Tabarra.


Staatliche Hochschule für Gestaltung Karlsruhe © João Tabarra.