João Tabarra: Desmultiplicação e Desmantelamento na God-box.

Sabrina D. Marques

4.56.20., João Tabarra, Solar – Galeria de Arte Cinemática, Vila do Conde

 

À beira de um novo ano, Vila do Conde recebe esta tarde com um sol de Inverno. Avanço através da escuridão da pedra centenária do Solar de São Roque, hoje transformado em galeria, e o olhar vai direito à intensidade de um ecrã onde pisca um impactante trailer que velozmente cruza números e imagens com hard-rock. O vídeo evoca a razão da minha visita: por aqueles dias, a Solar – Galeria de Arte Cinemática, deixa-se habitar por “4.56.20”, o projecto de João Tabarra que parte de um trailer nunca visto de Jean-Luc Godard (JLG) para o seu Numéro Deux.1 Ao lado, uma vitrine com posters de alto a baixo, reúne os eventos da vida preenchida da galeria que somou uma década de actividade em 2015. O director Mário Micaelo vem ao meu encontro e, adivinhando o fascínio dos olhos pregados à quantidade de nomes diversos, demora a explicar como cada um dos posters corresponde, no fundo, a uma hipótese para a (re)definição do que é a arte cinemática. Perdemo-nos entre os nomes de Apichatpong, Matthias Muller, André Cepeda, Peter Tscherkassky, Gustav Deutsch, Regina Pessoa, Abi Feijó, Luciana Fina, Tsai Ming-Liang, Graham Gussin, João Onofre, Christine Fowler, Nicolas Provost, Miguel Palma, Tatiana Macedo, Lois Patiño, Alexandre Estrela, Marta Alvim, Bill Morrison ou Pedro Paiva, entre tantos. Ao ouvir, com fascínio, acerca da forma como a diversidade das instalações reformula materialmente o espaço, inesperado ponto de permanente modelação, torna-se evidente a vocação experimental que caracteriza a Solar desde a sua génese. Ligada às Curtas Vila do Conde e usufruindo de uma direcção rotativa comum ao Festival, a galeria é um projecto dianteiro no panorama português que dá destaque à imagem em movimento, estreitando a relação da arte contemporânea com o cinema. Uma dinâmica, como lembra Micaelo, que se alimenta da importância de solidificar laços com os realizadores, de investir na visibilidade, de acompanhar ao detalhe os processos e de ir ao encontro das visões dos artistas, tantas vezes usufruindo da presença dos autores no Festival, o que expande as potencialidades destas mostras.

João Tabarra é ali um nome repetente, recebido pela segunda vez, agora a solo, depois da participação na exposição colectiva “2012 Odisseia Kubrick”. De momento, Tabarra vai e vem do país porque está a trabalhar como professor de Moving Image no Departamento de Media Arts, HGK Karlsruhe University for Arts and Design, Karlsruhe, Alemanha. Ao longo do processo de montagem, a sua ‘‘comitiva de entournage’’, como graciosamente a lembra Micaelo, vai aparecendo para apoiar o materializar da exposição. Chega Nicole Brenez, crítica, historiadora e docente de estudos cinematográficos na Universidade de Paris 3 Sorbonne Nouvelle (e quem, cúmplice do trabalho do artista, em 2012 lhe revelara que se tinha encontrado este trailer, que se julgava perdido). Chega a aluna de montagem que trabalhou consigo no vídeo na Alemanha. Chega a curadora do Jeu de Paume. E chegam amigos, vários, tão ansiosos como eu por espreitar o mais recente rasgo de um artista sempre prometedor. Conscientes de como a qualidade colectiva do trabalho de preparação artística rima com a própria produção de cinema, avanço na travessia – e é no mais genuíno estado de expectativa que desço até à escuridão destas caves cacofónicas.

Foi com a autorização do próprio JLG que Tabarra abriu a ‘’God-box’’ e de lá retirou 4.56.20 minutos de material inédito. Se fazer história é reconstruir a história, aqui um trailer para a emblemática longa Numéro deux é a matéria verdadeiramente transformada pela força de uma consciência do presente, assim contornando habilmente o osso eulogístico da cinefilia, esse terreno fértil para nostalgias. Não recear ‘’a mestria dos mestres’’ é ir de cabeça desassombrada: esta exposição não é uma dedicatória a Godard, não é uma ode à memória do cinema, não é sobre o afecto pela matéria-filme em extinção. Quando nos sabemos perante brutos apropriados, perante um processo de montagem e de manipulação de vídeo que filma película, o que testemunhamos são as potências do devir técnico: o passado em transformação é a reconfiguração do objecto artístico para lá do seu suporte original, nas sucessões da partilha e da reapropriação, pela vitalidade de ideias capazes de continuar a relacionar-se com o presente.

A justaposição dos ecrãs nestas caves abre a minha memória das instalações de televisores múltiplos que se sucedem em Numéro Deux de Godard (1975), documentário precursor que medita sobre a constituição política das imagens através da contraposição entre cinema e televisão, palcos contíguos do obsceno e do sublime. Em Numéro Deux, Godard filma ecrãs contra ecrãs e, questionando os fluxos do seu tempo, fundamenta o próprio ímpeto dissecador ao surgir em corpo e em rosto – verdadeira reencarnação do Homem da Câmara de Filmar – como quem recorda que atrás de uma imagem está um homem e, por conseguinte, uma ética e uma autoria/autoridade. Filmado em vídeo, este filme produzido para televisão, desmonta a crueza da sobre-visibilidade que o televisor trouxe à vida familiar e que influencia as dinâmicas do casal, a educação das crianças ou a construção dos atributos de género. Aqui na Solar, os sucessivos ecrãs estendem-se como uma paisagem, e são sete as instalações vídeo que dissecam e actualizam o material de 1975, a fazer ecoar na investigação de Tabarra a vitalidade das questões colocadas por Godard. E não é, neste presente alicerçado no excesso, mais necessário do que nunca questionar as imagens ininterruptamente encarregues de construir a realidade?

“Deixem as coisas falar um pouco”, murmura Jean-Luc Godard nas suas Histoire(s) du cinéma (1988-1998), eco reforçado no catálogo por Nicole Brenez. Nisto de ver cinema, não é verdade que os mesmos filmes são sempre filmes diferentes dentro de cada um que os (re)vê? Aqui, agora, João Tabarra é João Tabarra a lembrar-nos de que o passado pertence inevitavelmente ao nosso presente. Há que pensar com ele e, forçosamente, contornar a estática dessa matéria cultural comum, disponível, ao alcance dos nossos dedos. Ao escrever para a mesma publicação sobre o sétimo vídeo, intitulado break the chain of representation, Jonathan Rosenbaum recorda que “Sobre o ruído da eletricidade estática, vemos Vanessa escrever numa ardósia Antes de ter nascido, eu estava morta, numa imagem única que se torna duplicada e multiplicada, empilhando-se como cartas num jogo de paciência, apontando para as mesmas contradições que tanto “Numéro Deux” como “4.56.20” exploram de vários modos – os modos como a adição se pode tornar subtracção o solitário se pode tornar colectivo, o som se pode tornar imagem, a pertença à família se pode tornar solidão existencial, uma fábrica se pode tornar paisagem, a morte se pode tornar nascimento, a fertilidade do negro se pode tornar na esterilidade do branco, e como o vídeo se pode tornar cinema”.

Regressamos a Godard, lembrados de outra insígnia das suas Histoire(s): ‘‘O passado não está morto – não é sequer passado.’’, que tão bem alude ao gesto experimental com que Tabarra volta a formular uma posição analítica face ao cinema, no mesmo espírito vertoviano de analisar imagens através de imagens, com a urgência de salvar certas ideias do ‘‘mar das imagens, tão livres e ainda assim tão indecifráveis’’ (que Godard evocará em Filme Socialisme, 2010). Situado no interior das oposições entre som e imagem, entre vídeo e película, entre mudo e sonoro, entre ficção e informação, Tabarra dá a ver como a multiplicidade dos formatos de produção de imagens em movimento não corresponde, de facto a uma história de entre-substituição – antes a uma potenciação das vias de criação, de reprodutividade e de difusão. Directa ou indirectamente, o cinema examina-se a si próprio sempre – mas se há laboratório privilegiado para esta exploração é esse lugar voltado para o futuro desde a hora zero chamado Solar, Galeria de Arte Cinemática, em Vila do Conde.


Vista da exposição, 4.56.20., João Tabarra © João Tabarra, João Brites e Solar – Galeria de Arte Cinemática.


Vista da exposição, 4.56.20., João Tabarra © João Tabarra, João Brites e Solar – Galeria de Arte Cinemática.


Vista da exposição, 4.56.20., João Tabarra © João Tabarra, João Brites e Solar – Galeria de Arte Cinemática.


Vista da exposição, 4.56.20., João Tabarra © João Tabarra, João Brites e Solar – Galeria de Arte Cinemática.


Vista da exposição, 4.56.20., João Tabarra © João Tabarra, João Brites e Solar – Galeria de Arte Cinemática.


Vista da exposição, 4.56.20., João Tabarra © João Tabarra, João Brites e Solar – Galeria de Arte Cinemática.




Notas

1. Numéro Deux (Jean-Luc Godard, 1975) é um filme dividido em duas partes que disseca a relação entre a estrutura de construção de um filme e o tecido material da realidade. Encarando o cinema como um trabalho fabril de manufactura, Godard enuncia, numa primeira parte, os custos implicados em fazer um filme e descreve o que é necessário para obter fundos. Na segunda parte, elabora sobre a colisão entre a esfera pública e a esfera privada decorrente da presença dos ecrãs na vida doméstica, reflectindo transversalmente acerca de temas como o trabalho, o sexo, o lazer, o casal, a família ou a cultura.