O ano do Coleccionador 

Flávia Violante, Rita Salgueiro

Talvez seja excessivo afirmar que durante o ano de 2015 houve no panorama das exposições em Portugal um olhar especial sobre a figura do coleccionador. Contudo, este caso foi também assinalado recentemente por Catarina Figueiredo Cardoso num artigo que considerou 2015 “um ano marcado por exposições de colecionadores”.1 Lembrando brevemente alguns exemplos de anos anteriores, como a atenção que o investidor José Berardo tem recebido enquanto personalidade mediática ou as várias apresentações da Colecção Cachola, subjectiviza‑se forçosamente a particularidade deste caso no ano que passou. Aliás, a constatação de que no decorrer da primeira década do século XXI, Portugal assiste à abertura de várias colecções particulares, agora disponibilizadas em espaço público, tem sido proferida várias vezes por Adelaide Duarte, uma das historiadora de arte que mais trabalho de investigação desenvolveu na área da formação de colecções de arte contemporânea em Portugal. Nesse grupo contam-se: “o Núcleo de Arte Contemporânea Doação José-Augusto França (NAC‑DJAF), em Tomar, no ano de 2004; a Ellipse Foundation for Contemporary Art Collection, Cascais, e o Centro de Arte Manuel de Brito (CAMB), em Oeiras, em 2006; o Museu Coleção Berardo de Arte Moderna e Contemporânea (MCBAMC), em Lisboa, o Museu de Arte Contemporânea de Elvas Coleção António Cachola, (MACE), em Elvas, em 2007; a prefiguração do Museu do Design e da Moda Coleção Francisco Capelo (MUDE), em Lisboa, em 2009.”2 Outros exemplos mais recentes englobam: Fundação Leal Rios (2012) ou Coleção Norlinda e José Lima na Oliva Creative Factory (2013). Diga-se ainda que um relance sobre o exterior, onde também proliferam mostras de colecções privadas – destaque para a exposição Art & Language incompleto: Colección Philippe Méaille no MACBA em Barcelona (Setembro de 2014 e Maio de 2015), Coleccionismo y Modernidad. Dos casos de estudio: Colecciones Im Obersteg y Rudolf Staechelin no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, em Madrid (Março e Setembro de 2015) ou Ich Kenne Kein Weekend: The archive and Collection of René Block na Berlinische Galerie e na Neuer Berliner Kunstverein, em Berlim, (Setembro de 2015 e Fevereiro de 2016) – sinalizam o peso que estes espólios vão ganhando no contexto institucional público e privado.

Terminadas as ressalvas, construímos esta reflexão em torno do ano que passou conscientes de que o moldamos para designar uma determinada realidade. Partimos então desta lista, uma selecção3 é claro, incompleta:

Honey, I rearranged the collection… by artist Parte 1 e 2 na Culturgest (Lisboa);

Your body is my body: o teu corpo é o meu corpo no Museu Coleção Berardo (Lisboa);

Colecção Cachola: João Onofre no Chiado 8 (Lisboa);

O Olhar do Colecionador no Museu Berardo (Lisboa);

Eu e os Outros. Colecção Alberto Caetano no Museu Nacional de Arte Contemporânea (Lisboa);

Afinidades Electivas: Julião Sarmento na Fundação EDP (Lisboa).

 

O Ano do Cartaz: 

Colecção Lempert e Ernesto de Sousa 

Se este texto não olhasse para o coleccionador como tema, teria certamente focado exposições que apresentaram grandes colecções dedicadas ao cartaz enquanto veículo ou médium. Nesse âmbito 2015 foi um ano profícuo. Pensamos aqui na ambiciosa programação de Miguel Wandschneider que propõe a apresentação da Colecção Lempert em cinco partes, a cumprir até 2018. À data pudemos ver duas partes: Honey, I rearranged the collection… by artist Capítulo 1 – Parte I (Novembro de 2014 – Março de 2015) e Parte II (Maio de 2015 – Setembro de 2015) na Culturgest, em Lisboa. Outro exemplo de peso foi a exposição Your body is my body: o teu corpo é o meu corpo (Abril de 2015 – Abril de 2016) “espólio, agora denominado como Coleção de Cartazes Ernesto de Sousa e integrado na Coleção Berardo”.4

Como ponto comum, a montagem irrepreensível tanto na Culturgest como no Museu Berardo reflecte o cuidado expositivo através dos materiais que conferem uma visibilidade e dignidade museográfica pouco comum ao suporte. Se na apresentação da primeira parte da Colecção Lempert os fortíssimos núcleos, por artista5 e organizados em espaços independentes, garantiam uma autonomia individual face ao conjunto, o mesmo não se sentia de forma tão clara na segunda parte em que a consciência das fronteiras não operou em todas as salas.6 Sem referências externas e na ausência de tradução, Miguel Wandschneider remete a função comunicacional para segundo plano, mantendo a leitura destes cartazes que na maior parte dos casos anunciam exposições ancorada primeiramente no registo formal. O que emerge é por isso o lado gráfico, a composição, a tipografia, a imagem. Vem depois o contexto. O artista, os grupos, as cidades, os espaços de exposição e o lado documental que inscrito no mesmo suporte é passível de ser activado, facilmente, caso fosse essa a intenção. Mais, há um sentimento de não cumprimento nestes cartazes que os afasta do campo publicitário. Destaca-se assim a articulação que estabelecem com a obra (num sentido mais vasto) dos artistas que os assinam e a clara identificação da autoria.7 Diga-se ainda que apesar de a exposição envergar o nome do coleccionador, este permanece omisso. Sobre a questão sabemos apenas que a vasta colecção, com cerca de 15 mil cartazes, foi começada por Herbert Fritz Lempert, nos anos 60.

Por oposição, a colecção de cartazes reunida por Ernesto de Sousa agora apresentada no Museu Berardo pela mão de Isabel Alves,8 é simbólica pela relação que estabelece e que claramente denota o que foi a vida e a acção deste singular coleccionador, os interesses e os acontecimentos em que participou mais activamente, enquanto agente ou como espectador. Essa leitura biográfica, que porventura será a mais directa, não é forçada na exposição uma vez que não existe, além do texto de parede inicial em que se apresenta a figura, qualquer outra informação sobre Ernesto e a proveniência dos cartazes. Ficamos apenas com o nome dos três núcleos que organizam e dividem o espaço: My Body is Your Body: o meu corpo é o teu corpo, 1962 – 1987; Arte e Política e Portugal, 1933 – 1988; Arte e Política no Estrangeiro, 1946 – 1987. Para aceder a mais informação, é preciso consultar o catálogo que exaustivamente dá conta do investimento que Ernesto realizou, aprofundando ao longo da sua vida o conceito de cartaz e a sua validade comunicacional e política. Além de republicar o texto de 1965, Artes Gráficas, Veículo de Intimidade, destacam-se, o artigo de José Bártolo que estuda o design em Portugal nos anos 60 e 70 do século XX e o ensaio de Rui Afonso dos Santos que permite conhecer como a história da colecção se intrinca na história de Ernesto. Relativamente à opção programática, confirma-se com esta exposição, a aposta de Pedro Lapa em temporárias de grande duração (talvez por força das circunstâncias), após o caso de O Consumo Feliz. Publicidade e sociedade no século XX, outra mostra de cartazes que esteve patente mais de um ano, ou seja entre Maio de 2013 e Junho de 2014.

 

Artista Coleccionador: 

Julião Sarmento

Com um espectro diferente, mas com alguns dos mesmos nomes presentes na Colecçao Lempert e nas relações de Ernesto de Sousa,9 pudemos ver em 2015 a Coleccção de Julião Sarmento. A exposição Afinidades Electivas apresentada na Fundação EDP entre Outubro de 2015 e Janeiro 2016, foi comissariada por Delfim Sardo e decorreu em parceria com a Fundação Carmona e Costa onde foram expostos trabalhos em papel.

No Museu da Eletricidade, um dos pontos fortes da exposição traduz‑se no consistente núcleo dedicado à fotografia, mas também na possibilidade de ver em Portugal obras ligadas a referências maiores da arte americana como Robert Morris, Joseph Kosuth ou Bruce Nauman, entre outros nomes fundamentais que marcam a segunda metade do século XX, Joseph Beuys, Andy Warhol, etc. A justaposição de nomes consagrados em articulação com outros de pesos e contextos diversos é ainda algo que reforça a importância deste tipo de espólio e exposição. Facilmente estabelecemos leituras e pontes entre a pequena fotografia de Sara & André no início do percurso, o trabalho de Nan Goldin ou o vídeo de Gabriel Abrantes.

Com título tomado de empréstimo a Goethe e evocando a imagem do artista recolector, Sardo traça o retrato do coleccionador de afinidades “constituídas a partir de zonas muito intensas de vivências comuns, sem qualquer preocupação com ligações formais entre trabalhos que lhe interessam e o seu próprio trabalho artístico.”10 O enfoque romântico que o título confirma é um recurso que estava igualmente presente aquando da exposição O olho do tigre: Obras da Colecção Sarmento, na Appleton Square, com curadoria de Ana Anacleto no início de 2014. Nesse caso, uma apresentação mais reduzida da colecção, por comparação à vasta selecção de obras agora apresentadas na Fundação EDP, o título também remetia para um poeta:

Não por acaso, resolvemos titular a presente exposição de O OLHO DO TIGRE, referindo-nos objectivamente a uma modalidade do olhar que reconhecemos em toda a prática de Julião Sarmento. O seu duplo estatuto de artista e coleccionador suporta, em nosso entender, a construção de um olhar, ou melhor, de uma particularidade do olhar – a sua condição felina, voraz, perscrutadora, ávida. Para o coleccionador, desejar e perseguir um objecto que pretende que faça parte da sua colecção, implica, em certa medida, uma postura de caçador. E aqui a metáfora do tigre é absolutamente eficaz, uma vez que, no momento da perseguição, o seu olhar se fixa na presa não mais a deixando até ao derradeiro momento da conquista.

A dualidade inscrita na figura do tigre que combina uma inebriante beleza estética com uma ferocidade primordial, está plasmada no conhecido poema de William Blake e na forma como lida simultaneamente com a questão da criação e da inspiração e com o conceito de sublime (na presença do mistério e do medo).11

Ainda que um dos factores determinantes para a singularidade de qualquer colecção esteja intrinsecamente relacionada com o olhar do colecionador e com as respectivas condições de constituição, este acaba por ser vezes de mais um mote que se repete. Parece‑nos que o interesse, estudo e exposição não se deve restringir ao peso do coleccionador sob pena de se descurar aquilo que verdadeiramente constitui um espólio, ou seja as obras, a forma de incorporação, quer pela via da aquisição directa, doação, troca, amizade, gosto, mercado, valor, etc, o lugar que ocupam no conjunto enquanto colecção e as possibilidades que geram. Nesta perspectiva acresce a importância de produzir um catálogo associado à exposição, facto que ocorreu como resultado de Afinidades Electivas, ainda que o conteúdo fique no campo do levantamento e inventário.

 

Coleccionador Curador: 

O Olhar do Coleccionador

Um exemplo em que porventura a efabulação do colecionador também entra em jogo foi a exposição O Olhar do Colecionador, que esteve patente entre Maio e Setembro de 2015, no Museu Berardo. Como é de conhecimento público e novamente notícia, José Berardo, provavelmente o mais conhecido coleccionador português assinou em 2006 um protocolo com o Estado português disponibilizando o seu espólio de arte moderna e contemporânea por 10 anos no espaço do Centro Cultural de Belém. No protocolo consta a hipótese de o Estado adquirir 862 obras, pelo valor de 316 milhões de euros até 2016. A situação encontra-se em negociação com o actual Ministro da Cultura, João Soares, que depois do silêncio de Barreto Xavier, volta a reforçar a importância desta colecção no contexto nacional. Essa importância provém aliás da natureza da sua constituição, pensada por Francisco Capelo, obra a obra, pontuando movimentos e artistas de relevo do século XX. A apresentação cronológica e didática que Pedro Lapa definiu desde 2012 através das duas exposições permanentes (Coleção Berardo 1900-60 e 1960-90), contrasta portanto com a amostra mais pequena e intuitiva com que Berardo, assumindo também o papel de curador em 2015, ocupou uma parte do grande hall no piso -1 do museu.

Rica em pormenores que merecem menção, começando pelo título que novamente remete para a metáfora do olhar, sublinhamos no entanto o critério de escolha que ficou claro num breve texto assinado pelo coleccionador. Esse critério é pois o do gosto pessoal, marcado por um traço formalmente comum que se evidenciava rapidamente na exposição. Para além das obras com temáticas mais, e cite‑se, “picantes”, revela Berardo:

Confesso, também, que sempre me senti atraído pela escala opulenta de alguma pintura moderna e a seleção de algumas das obras reflete esse meu fascínio.12

Concretamente a escala ou melhor, a dimensão, foi um traço central que presidiu toda
a exposição e uma redução que infelizmente se aplicou à obra de Marc Chagall que servia de imagem de divulgação com a legenda, “Uma das maiores obras de Marc Chagall”. Essa mesma frase tinha também lugar na exposição. Colada no chão, (onde geralmente existe uma linha que impede a aproximação excessiva do espectador) em letras garrafais, a frase informava (redundantemente) quem tinha o privilégio de ver o imponente pano de cena para a “Flauta Mágica”, Acto 2, Cena 3 (1965-1967), concebido por Chagall para a Metropolitan Opera House de Nova Iorque, que a dimensão é um factor qualitativo.

Relembre‑se que já em 2014, por ocasião da exposição O Narrador Relutante, comissariada por Ana Teixeira Pinto, Berardo fez questão de mostrar o seu gosto, em desacordo com a linha posta em prática pelo já referido director artístico, Pedro Lapa. Não resistimos a transcrever parte do mais invulgar texto institucional que conhecemos. Referindo-se à exposição, (numa publicação editada pela Sternberg Press13) Berardo afirma: “a inovação ultrapassa a minha perceção estética” e elabora:

Enquanto público custa‑me compreender determinadas obras. O problema poderá ser meu… quem sabe algum resquício do Velho do Restelo? Talvez falta de formação? Incultura? Inexistência de intelectualismo? Resistência à mudança ou a alguns padrões de criação artística atual? As hipóteses são muitas, mas são minhas, são sinceras e de um verdadeiro narrador relutante.14

O trocadilho com o título da exposição que Joe assume de forma literal, marca o tom deste breve texto. Na impossibilidade de citar integralmente, saltamos para o final. Terminando, dirige-se ao leitor (perplexo?!):

Bem hajam todos os que participam nesta exposição, e como diz o grande músico Paulo de Carvalho: “Desculpem qualquer coisinha”. Espero que o futuro de ontem não seja o hoje e que o amanhã seja uma imensidão de janelas abertas!15

 

Coleccionadores como mecenas? 

A Colecção António Cachola16 teve a primeira apresentação pública em 1999, em Espanha, no Museo Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporâneo. Em 2007 é inaugurado o Museu de Arte Contemporânea de Elvas onde parte da colecção é exposta em permanência. Segundo uma vontade estratégica, Cachola aproxima o contexto espanhol à região do Alto Alentejo e contribui para tentar colmatar lacunas culturais nesta zona do país.

António Cachola faz parte de um grupo de coleccionadores que após algumas décadas dedicadas a reunir (com a orientação de Bernardo Pinto de Almeida, João Pinharanda e Delfim Sardo) um consistente número de obras de arte de autores contemporâneos portugueses, procurou torná-la pública apostando numa lógica de descentralização dos pólos de arte contemporânea. Esta prática encontra no contexto português outros exemplos semelhantes como é o caso das já referidas: Colecção Norlinda e José Lima em depósito na Oliva Creative Factory em São João da Madeira e da Colecção José-Augusto França em Tomar. Embora sejam colecções distintas na forma como foram definidas e estruturadas, os coleccionadores viram nos Municípios fortes aliados no momento de as tornar públicas.

A Colecção Cachola tem-se multiplicado em exposições pelo país, destaque para a última “Um horizonte de proximidades: Uma topologia a partir da Coleção António Cachola” no Arquipélago: Centro de Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande, Açores entre Outubro de 2015 e Fevereiro de 2016 com curadoria de Sérgio Mah. Depois da maior apresentação no Museu Berardo em 2010,17 em Maio de 2015 a Colecção António Cachola volta a Lisboa. Desta vez com um conjunto de exposições comissariadas por Delfim Sardo,18 um ciclo iniciado com a apresentação do trabalho de João Onofre, sendo esta uma escolha paradigmática da linha orientadora da colecção. Apresentam-se como importantes alicerces da colecção a aposta em artistas portugueses em início de carreira, tendo as décadas de 80 e 90 maior representação e simultaneamente a acentuada aposta na consolidação de núcleos monográficos. Neste sentido, é possível que no Chiado 8 o curador mostre de forma coerente um conjunto de obras representativo da relação de António Cachola com a produção de Onofre. Acompanhando desde início o artista, o coleccionador detém Sem título (We Will Never Be Boring) de 1997, a primeira obra de Onofre, agora apresentada ao lado de Tacet (2014) uma das últimas, produzida com a fundamental ajuda de Cachola. A co‑produção de Tacet é em si mesma uma confirmação deste seu posicionamento. Cachola aposta na produção da obra que depois vem a adquirir, uma acção não muito comum no contexto português: um mecenato que torna possível a existência da obra, aparentemente sem contrapartidas, nem encomendas.19

 

Coleccionadores como Amigos:

Eu e os Outros, Coleção de Alberto Caetano 

O Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado apresentou entre Julho e Outubro de 2015 a exposição “Eu e os Outros: Coleção de Alberto Caetano” com curadoria de Adelaide Duarte, Alberto Caetano e Raquel Henriques da Silva, e produzida pelos Amigos do Museu do Chiado.

Novamente em tom de efabulação, a história desta colecção é contada no catálogo pelas curadoras. Iniciada por um jovem adolescente

Por volta de 1975, Caetano combatendo a timidez e desafiando convenções, percorreu casas de alguns artistas de Lisboa, pedindo desenhos para uma desejada coleção. A António Soares, Sarah Affonso, a Carlos Botelho, a João Vieira, entre outros, o jovem Caetano tocou à porta, apresentou-se como colecionador e pediu que lhe oferecessem um desenho. Enquanto Botelho ignorou tal pretensão, Sarah Affonso ou António Soares acederam e permitiram-lhe ser bem sucedido.20

Nesta exposição Alberto Caetano fez parte da equipa curatorial, facto determinante na estrutura expositiva que opta por uma lógica binária de confronto directo sempre entre duas obras. Alguns dos pares são prováveis, como é o caso da fotografia “Sem Título” da série Inox (estudo) de Jorge Molder e a obra “Santa Luzia” de Rui Sanches, ou mesmo directos como é o caso da obra “Galo” de Rosa Ramalho e a pintura “Ateca-Barcelona” de Joaquim Rodrigo. Estes encadeamentos partem maioritariamente de pontos de vista afectivos, mas simultaneamente, são estabelecidas relações formais, essas mais declaradas ao olho do espectador.

A exposição é a primeira de um ciclo, que o programa eleitoral dos Amigos do Museu do Chiado propôs para 2015:

(…) as exposições Coleções no MNAC – MC, recuperando uma atividade praticada no Museu ao tempo da sua reabertura em 1994. Estas exposições temporárias têm por base colecções particulares de relevância, cujo âmbito cronológico coincida com o do acervo do Museu, desejando-se, com esta iniciativa, aproximar os colecionadores da instituição e incitar ao seu depósito ou doação.22

Podemos afirmar que esta incursão junto da programação do Museu é uma estratégia que reforça a importância do poder privado como determinante para a subsistência dos museus públicos. Nesta área a Professora Raquel Henriques da Silva tem sido umas das vozes mais activas, suscitando o interesse de mecenas junto das instituições públicas. A possibilidade de alcançar seguidores aumenta quando as colecções privadas ganham visibilidade no espaço público e são incorporadas na programação museológica, promovendo consequentemente um trabalho de organização, documentação e estudo das obras, que as valoriza.

Ainda dentro da mesma lógica, os Amigos do MNAC – MC avançam com uma segunda linha de acção convergente, o Ciclo Colecionar Arte: Conversas a partir de Coleções Particulares. Iniciado em 2013, o ciclo dá a palavra a coleccionadores de arte contemporânea, para na primeira pessoa revelarem ao público do MNAC – MC as suas escolhas, interesses e métodos de trabalho, procurando “mapear os colecionadores (…) do nosso país, aproximando-os do Museu, e [convidando‑os] a partilhar as motivações do colecionismo, o gosto e as vicissitudes da reunião das obras ou as flutuações do mercado da arte.”23

 

Como é evidente, o tema colecções e coleccionadores está intimamente ligado ao mercado galerístico e a uma noção concreta de poder económico. Susceptível a oscilações e sempre passível de questionamento, a dimensão do objecto artístico como produto e investimento é sistematicamente surripiada no contexto museológico. Em 1994 Raquel Henriques da Silva dava atenção a este problema, analisando o trabalho desenvolvido pelo galerista Manuel de Brito:

Num país quase sem museus de arte moderna e sem políticas públicas continuadas de apoio e promoção da prática artística, o empenho coleccionista de Manuel de Brito permitiulhe adquirir espólios de inestimável valor, salvar os painéis de Almada Negreiros do Cine San Carlos de Madrid ou reunir peças soltas que são marcos significativos de diversos percursos e a sua dedicação promocional em relação à arte portuguesa tem feito dele organizador ou comissário de algumas das suas mostras no estrangeiro. 24

Passados mais de 20 anos sobre esta afirmação, o problema já não se prende com a falta de espaços. É notório que nas últimas décadas têm proliferado em Portugal espaços dedicados à Arte Moderna e Contemporânea.

Em regra estes ganham notoriedade através de marcantes projectos de arquitectura, ficando muitas vezes a faltar um programa museológico e/ou curatorial. Sem verbas para adquirir colecção ou sem possibilidade de trabalhar segundo uma lógica de rede ou de co-produção, muitas vezes são as colecções privadas que salvam programações. Contudo, é importante reforçar que existem exemplos que ao longo dos últimos anos têm vindo a marcar presença positiva no contexto nacional, insistindo na validade e pertinência da descentralização cultural, como é o caso do: Centro de Artes Visuais e o Círculo de Artes Plásticas em Coimbra, que através da parceria com a Universidade de Coimbra permitiu em 2015 a produção da Bienal Ano Zero; do Município de Vila Franca Xira com o trabalho consistente do Museu do Neo‑Realismo, e que este ano apresenta mais uma edição da Bienal de Fotografia com curadoria de David Santos; do Centro Cultural Vila Flor, que desde 2012 trabalha em parceria com o Centro Internacional de Artes José de Guimarães (CIAJG), um dos maiores espaços pensados e preparados para arte contemporânea no país (remanescência de Guimarães Capital da Cultura) onde têm vindo a mostrar as escolhas coerentes do curador Nuno Faria tendo como esteio a colecção do artista José de Guimarães; ou ainda o recente Fórum da Fundação Eugénio de Almeida, em Évora que desde 2015 conta com a programação a cargo de Filipa Oliveira.

Portanto, actualmente a pergunta é outra: onde podemos ver (e mostrar a quem nos visita) colecções de arte contemporânea portuguesa ou internacional expostas em permanência? Esta é uma pergunta que se pode colocar: ao MNAC – MC que por missão deveria cumprir essa função;25 ao Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian que não mantém uma posição programática clara e coerente, ou ainda ao Museu Serralves e à Colecção Caixa Geral de Depósitos que têm cingido a sua aposta quase exclusivamente à itinerância das colecções.


Joaquim Rodrigo, Ateca - Barcelona, 1975. © José Manuel Costa Alves, MNAC - MC e Col. Alberto Caetano.


General Idea, Nazi Milk, 1979 © Esther Schipper (Berlim) e Culturgest.


Vista da exposição Afinidades Electivas, 2015 © Col. SILD e Fundação EDP.


José Berardo e a obra de Marc Chagall, Pano de cena para a Flauta Mágica de Mozart, 1965 © Museu Berardo.


Joseph Beuys, Bernd Klüser, München. ©Col. de Cartazes de Ernesto de Sousa, Museu Berardo e Cláudio Balas.


Dan Flavin, Four "Monuments" For V. Tatlin 1964-1969 from Dan Flavin, 1970, impressão offset © Leo Castelli Gallery (Nova Iorque) e Culturgest.


João Onofre, Tacet, 2014. Still de video, 2k video, cor e som, 7'40''. © João Onofre e Col. António Cachola.




Notas

1. Trata‑se do primeiro texto de uma série que Catarina Figueiredo Cardoso, coleccionadora de publicações de artista, escreveu para a plataforma online Artecapital sobre colecções de arte contemporânea e coleccionadores. Cf. Catarina Figueiredo CARDOSO, Janeiro 2016: ser Coleccionaro é… in artecapital.net [consultado a 28 de Janeiro de 2016].

2. Adelaide DUARTE, Da Colecção ao Museu: O colecionador privado de arte moderna e contemporânea em Portugal in run.unl.pt [consultado a 28 de Janeiro de 2016].

3. A selecção incide em exposições apresentadas no decorrer de 2015 e que operam no campo da arte contemporânea. Nesta lista poderiam entrar outros exemplos pertinentes como: Uma Conversa Infinita. Livros de artista, ephemera e documentos no Museu Berardo (10 de Julho de 2014 a 29 de Março de 2015); Sonnabend | Paris – New York na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva (5 de Fevereiro a 3 de Maio); The Sonnabend Collection: meio século de Arte Europeia e Americana. Parte 1 no Museu Serralves (1 de Fevereiro a 8 de Maio de 2016).

4. your body is my body – o teu corpo é o meu corpo in museuberardo.pt  [consultado a 28 de Janeiro de 2016].

5. Jean Dubuffet, Claes Oldenburg, Ben Vautier, Allan Kaprow, Robert Rauschenberg, Andy Warhol, Richard Hamilton, Dieter Roth, Ellsworth Kelly, Dan Flavin, Sol LeWitt, Hanne Darboven, Richard Tuttle, Lawrence Weiner, Marcel Broodthaers, Gino de Dominicis, James Lee Byars et al.

6. Oswald Oberhuber, John Baldessari, Franz West, Günter Brus, Martin Kippenberger, Reinhard Mucha, Lothar Baumgarten, General Idea, Heimo Zobernig, Mike Kelley, AlbertOehlen, Christopher Wool, Christopher Williams et al.

7. No texto de parede que assina, Miguel Wandschneider coloca algumas questões: “Por que razão tantos artistas, sobretudo a partir da década de 1960, produziram tantos cartazes, na sua maioria para anunciar as suas próprias exposições, não deixando esse meio de comunicação por mãos alheias (de designers, galerias, instituições)? Por que razão tantos artistas continuaram a produzir cartazes na época da comunicação eletrónica, em que o cartaz foi destronado e tornado obsoleto por meios mais rápidos, mais eficazes e mais económicos de divulgação das exposições?”

8. Directora do Centro de Estudos Multidisciplinares Ernesto de Sousa e viúva de Ernesto de Sousa.

9. Marina Abramovic, John Baldassari, Andy Warhol, Lawrence Weiner, Joseph Beuys entre outros.

10. Delfim SARDO, Afinidades Electivas, Documenta, Lisboa, 2015, p.22.

11. Ana ANACLETO, O OLHO DO TIGRE: Obras da Colecção Sarmento in appletonsquare.pt [consultado a 28 de Janeiro de 2016].

12. O Olhar do Colecionador / The Collector’s Eye in museuberardo.pt [consultado a 28 de Janeiro de 2016].

13. Ana Teixeira PINTO, O Narrador Relutante: Práticas Narrativas na Arte Contemporânea, Sternberg Press, Lisboa, Berlim, 2014.

14. Idem, p.123.

15. Idem.

16. Cf. website Colecção António Cachola in col-antoniocachola.com [consultado a 28 de Janeiro de 2016].

17. “A Culpa Não É Minha. Obras da Colecção António Cachola” com curadoria de Eric Corne, 13 de Setembro de 2010 a 09 de Janeiro de 2011.

18. Colecção António Cachola: Chiado 8 Espaço Fidelidade Arte Contemporânea. Exposição de João Onofre entre Maio a Julho de 2015; Ângela Ferreira e Fernanda Fragateiro entre Julho e Setembro de 2015; e Musa Paradisiaca e Mauro Cerqueira entre Março e Abril de 2016. Ciclo comissariado por Delfim Sardo um nome que se repete na curadoria de exposições de colecções privadas.

19. Sublinhamos que a noção de mecenato é cada vez mais estranha no campo da arte contemporânea. A produção de obras está muitas vezes dependente de prémios monetários, sendo que os fees pagos pelas instituições nem sempre fazem parte do contracto, e em alguns casos as galerias comerciais suportam uma percentagem das despesas de produção, tendo claro a contrapartida da venda.

20. AAVV, Eu e os Outros: Coleção de Alberto Caetano, Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, Lisboa, 2015, p.4;

21. Eleição dos órgãos sociais da associação Os Amigos do Museu do Chiado in museuartecontemporanea.gov.pt [consultado a 28 de Janeiro de 2016].

22. Até à data foram convidados: Alberto Caetano (Abril de 2014), José Lima (Março de 2015), Luiz Augusto Teixeira de Freitas (Julho de 2015) e Miguel Rios (Novembro de 2015)

23. Eleição dos órgãos sociais da associação Os Amigos do Museu do Chiado. op. Cit.

24. BRITO, Manuel de, Silva, Raquel Henriques da, Colecção Manuel de Brito: Imagens da arte portuguesa do século XX, Electa, Lisboa, 1994, p.16.

25. Não esquecemos que após a reabertura em 1994, o MNAC ‑ MC mostrou um esforço muito significativo para inscrever a produção contemporânea portuguesa na História da Arte, trabalhando e aprofundando as colecções.