O estado primitivo do filho do sol.

Pedro Barateiro

Aprender a viver com o inimigo, Pedro Neves Marques, Museu Coleção Berardo, Lisboa

 

O título deste texto é uma referência a uma das Iluminações de Rimbaud, retirada do texto Vagabundos. Utilizo a tradução de Mário Cesariny: “Efectivamente eu jurara, com a maior sinceridade de espírito, devolvê-lo ao seu estado primitivo de filho do sol, – e errávamos, sustentados pelo vinho da mina e pela bolacha da estrada, eu com pressa de achar o lugar e a fórmula.” A citação de Rimbaud pode parecer abstracta para começar um texto sobre a obra de Pedro Neves Marques, mas é a forma que encontrei para questionar um caminho escolhido, que começa com um corpo em fuga.

A referência a Rimbaud pode inicialmente parecer despropositada, mas não é. O poeta francês preconiza uma fuga do Ocidente quando decide embarcar em diversas viagens, primeiro pela Europa (diz-se que muitas dessas viagens eram feitas a pé) e depois por outras paragens, como Java, na Indonésia, Larnaca, no Chipre, Áden, no Iémen, e mais tarde por Harar, na Etiópia. Rimbaud demonstra um elevado nível de cepticismo em relação à aparência moderna do mundo, o desenvolvimento técnico que estava a começar a normalizar-se no final do século XIX, através dos novos modos de produção. O poeta decide deixar o círculo intelectual que o rodeava, onde encontramos, por exemplo, Paul Verlaine, para ir trabalhar e ganhar dinheiro fora da Europa, como era aliás, costume para pessoas que viviam em países que tinham colónias. Rimbaud acabou por se fixar durante alguns anos na Etiópia e teve vários trabalhos, desde capataz em empresas de construção, até se fixar como homem de negócios. Em Harar negociava café, mas também armas de fogo, que entravam ilegalmente no Norte de África.

Rimbaud personifica a fuga do meio que o gerou como escritor e poeta, e é nas suas viagens que ele encontra o tempo e o espaço da sua escrita. Trata-se de colocar o próprio corpo numa outra geografia, para talvez se encontrar consigo mesmo. A ideia de alteridade, tal como é interpretada na antropologia, é um conceito que me interessa trazer para a discussão do trabalho de Neves Marques, porque está implícito que um indivíduo seja capaz de se colocar no lugar do outro, uma relação baseada no diálogo e na valorização das diferenças existentes.

O trabalho que Pedro Neves Marques tem desenvolvido nos últimos anos vem de uma relação particular com um país que foi colonizado pelo império ultramarino português. A um espectador menos atento, a visita à exposição poderia sugerir que Pedro Neves Marques se tratasse de um artista brasileiro e não português. O seu interesse no pensamento e nas investigações feitos no Brasil vem, em parte, da troca com o arquitecto Paulo Tavares e com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que se manifestou no livro The Forest and the School / Where to Sit at the Dinner Table?, que Neves Marques editou em 2014, um compêndio de textos em torno da antropofagia tal como a definiu Oswald de Andrade. O escritor e dramaturgo brasileiro utilizou este termo para definir a vanguarda modernista na arte brasileira, e o seu Manifesto Antropofágico é exemplo disso. Importa salientar que a antropofagia é diferente do canibalismo, no sentido em que um nativo comia a carne de outro nativo que admirava, tentado assimilar o que o outro tinha de bom.

O trabalho que Pedro Neves Marques tem vindo a desenvolver faz com que seja desnecessária a identificação da sua prática com uma ou outra área de acção no campo das artes visuais, no cinema ou na escrita. O trabalho manifesta-se em diversas áreas, pela necessidade de introduzir temas ao pensamento que o agente – chamemos-lhe assim – decide trabalhar. A sua prática aproxima-se bastante da de um antropólogo, alguém que mantém uma relação ambígua com o objecto de estudo, submergindo-se numa cultura da qual também é parte.

O facto de utilizar a noção de alteridade no início do meu texto tem a ver com a actual incapacidade de nos colocarmos numa posição que nos questione. Os discursos totalitaristas e colonizadores que dominaram o ocidente durante todo o século XX, e que deram origem ao capitalismo e a uma crença na economia global como última forma, fizeram-nos prisioneiros daquilo que consideramos ser um progresso positivo, e que se manifesta nos avanços tecnológicos e também na cultura. A ideia moderna de progresso positivo, que não questiona a ética dos desenvolvimentos tecnológicos, continua a conduzir-nos para eminentes catástrofes naturais materializadas em formas diversas de auto-destruição ou extinção. Os avanços na ciência parecem alheados das condições de vida, de qualquer forma de vida, neste planeta. A crise financeira que assombra todo o ocidente desde a queda do Lehman Brothers fez com que tivéssemos de olhar para este mundo, em crise ecológica, como o lugar onde a conviviabilidade será cada vez mais complexa, mas também cada vez mais necessária.

 

Este texto é uma reflexão sobre a exposição Aprender a viver com o inimigo, de Pedro Neves Marques, apresentada no Museu Coleção Berardo, em Lisboa, entre 19 de Maio e 17 de Setembro de 2017, a partir de um convite de Pedro Lapa. A exposição foi uma ocasião única para dar a conhecer um conjunto de obras recentes em torno de preocupações que ocupam o artista, realizador e escritor. Mais do que uma exposição onde são exibidas obras que tentam tratar os temas que lhe servem de referência, Aprender a viver com o inimigo é um manifesto, um momento particular onde o material apresentado encontra um equilíbrio entre formae conteúdo.

O conjunto de obras apresentadas na exposição encontra um paralelo muito real com a situação política e social do mundo, com particular interesse no momento que se vive no Brasil. As obras reflectem situações distópicas para pensar o mundo em que vivemos de forma consciente e informada. Os factos são demonstrados como uma espécie de post-truth (na sua tradução para português como pós-verdade). Considerada pela Oxford Dictionaries como a palavra do ano de 2016, é um adjectivo que se refere ao momento em que os factos objectivos são menos relevantes para formar a opinião pública do que os apelos à emoção ou a crenças pessoais. Esta expressão reapareceu em 2016, devido à eleição presidencial nos EUA, ao referendo em Inglaterra sobre a União Europeia, mas também aos casos de corrupção que levaram à queda do governo de Dilma Roussef no Brasil. A palavra está associada a políticas populistas e demagógicas, e é geralmente utilizada na expressão post-truth politics.

 

Os filmes Semente Exterminadora, Aprender a viver com o inimigo? e YWY, o Andróide, todos de 2017, reflectem a complexidade das narrativas ficcionais, a relação entre ficção e cinema documental, mas também com a ficção científica. A obra que dá título à exposição trata o uso de sementes geneticamente alteradas em plantações de soja transgénica (o mesmo acontece na produção de milho e cana-de-açúcar) no interior do Brasil, e os efeitos reais destas produções agrícolas, não apenas na alteração dos padrões de produção e consumo dos derivados da soja, mas também pela dimensão política que este tipo de monocultura agrícola tem na desflorestação e ocupação por parte do governo brasileiro de terras indígenas. Em YWY, o Andróide, a aparência de uma índia serve para disfarçar um robot que fala com o milho transgénico, que ela própria usa como combustível para funcionar. A curta-metragem Semente Exterminadora é uma narrativa mais complexa que junta os filmes anteriores numa mesma história, especulando um futuro possível para o Brasil, onde a exploração de petróleo e a automação na agricultura alteram de forma drástica o uso dos recursos naturais, demonstrando as mudanças na relação entre agentes humanos e não-humanos.

As obras exibidas tratam de abordar a complexa relação entre humanos e não-humanos, questionando escrupulosamente a acção humana sobre a natureza e a sua representação. As obras recusam uma concepção binária e colonizadora vinda do pensamento ocidental e da sua relação com a religião. Essa concepção binária, que ainda hoje utilizamos para falar dos desenvolvimentos científicos, revela-se altamente problemática na nossa ligação com o mundo, porque é usada para beneficiar os agentes humanos em relação aos agentes não-humanos. Esta exposição representa a natureza de maneira totalmente diferente, relaciona-se com a ideia de natureza na perspectiva de que não existe nada que possa ser considerado artificial, que a natureza é uma ficção, uma construção, tal como a define Donna Haraway.

A obra de Pedro Neves Marques obriga-nos a pensar uma das questões mais essenciais para a produção artística: qual a necessidade de fazer filmes e obras de arte quando o mundo onde estes objectos existem está de tal maneira doente, que não nos resta mais do que fantasiar por um qualquer fenómeno absolutamente catastrófico, que acabe de uma vez por todas com esta situação. É necessária uma análise cuidada das formas de aprendizagem, representação e capitalização do mundo. Aprender a viver com o inimigo é afinal aprender a v iver com nós mesmos, com a constatação de que somos os agentes mais nocivos, para nós próprios e para o planeta. Nesse sentido, olhar para o Brasil como um retrato possível do futuro é um exercício de futurologia que deverá servir para prever (ou talvez não) futuros resultados. Resta perguntar, o que podem a ficção, as narrativas ficcionais e especulativas fazer senão imitar um laboratório onde cada investigador analisa e multiplica as probabilidades para encontrar uma solução para um problema. A grande diferença entre a especulação científica e aquela que fazemos em arte, é que em arte não se parte para a pesquisa com um fim definido, não existe uma fronteira ou um objectivo definido, e essa é a sua característica aparentemente mais pertinente. A aparência é, como sabemos, a forma de dar uma maior importância à visão, mas também a todos os problemas associados à falta de equilíbrio na percepção do mundo. Em qualquer uma destas áreas de especulação, o uso da natureza e da sua representação é uma forma de apropriação brutal, que não segue qualquer código de ética. A palavra cultura continuará a ser duvidosa para definir qualquer que seja o gesto que se exerça sobre a natureza, e o nosso trabalho continuará cada vez mais questionável. Muitas vezes, para ganharmos uma discussão, acabamos por usar argumentos que não dominamos, apenas para provar que temos razão. Não existem verdades absolutas, esse é um dos maiores ensinamentos da ciência, contra toda e qualquer religião ou totalitarismo arbitrário.

 

A primeira e última obra com que nos confrontamos na exposição é Digital Animals: Dream Sequences (2017). Neste filme vemos jovens que adormecem a ver vídeos de animais nos seus dispositivos electrónicos. O vídeo começa com um animal já extinto encurralado numa jaula. Inevitavelmente, reaparece a ideia de fuga, de que falo no iníciodo texto. E aparece também outra pergunta: o uso desenfreado e compulsivo de imagens faz de todos nós espectadores mais ou menos conscientes da nossa própria condição? O trabalho de Pedro Neves Marques faz-me questionar, mais uma vez, de que forma as obras, os desenvolvimentos e a especulações feitos em arte, no cinema, na escrita de ficção e nas ciências sociais contribuem para a evolução do espaço que ocupamos no mundo. Estamos, como no seu filme, adormecidos, já sem capacidade física para nos levantarmos e fugirmos para outro lado. É que já não sabemos para onde ir. Revemo-nos noutro vídeo, Aedes Aegypti (2017), onde um mosquito que transporta o vírus Zika se alimenta de sangue humano.

Entre o medo que se apodera do nosso corpo, a paranóia generalizada, as teorias da conspiração e as músicas pop ou de intervenção, será o nosso desejo fugir, mudar? Mas ir para onde? Para Marte? E para fazer o quê? Colonizar outro planeta, como nos quer fazer acreditar Elon Musk, nas suas manipulações e estratégias publicitárias ridículas? O conhecimento é uma arma demasiado perigosa para ser utilizada por meia dúzia de pessoas que se consideram intocáveis. Merece a arte ser chamada de arte, se a sua função é a de tornar agradável o mundo que nos rodeia para bel-prazer de outra meia dúzia de estupores sem gosto nenhum? Serão as nossas especulações um laboratório para definir o gosto de outras meias dúzias de aspirantes a empreendedores?

Não vou terminar com uma questão nem com uma afirmação que vos garanta a minha capacidade retórica e de organização de ideias, para que o tom não seja épico. Há sempre uma tendência na escrita para que isso aconteça. Isto não é literatura nem ficção. Interesso-me pouco pelos meus leitores, mas espero que eles se interessem pelo mundo e pelo espaço em que vivem. Não compete a nenhum de nós utilizar o mundo da forma como o temos feito. Vamos ser capazes de assistir à nossa destruição como o maior espectáculo, como previu Walter Benjamin. Já o fizemos tantas vezes no cinema. E quem vai fazer o casting? Podemos escolher alguém muito bonito para anunciar o fim do mundo, para a transmissão em directo. Com toda a certeza saberemos que não vale de nada fugir. E que é uma vã tentativa, a de nos encontrarmos, nós mesmos, de volta ao mesmo lugar onde tudo sempre se passou. E que não há nada melhor do que estar aqui, presente e lúcido, sem julgamentos, a tentar destruir as concepções binárias do mundo.