Escolha de: Mariana Silva

Mariana Silva

O que está a dar no teu tablet?

O trajecto de transportes públicos entre casa e trabalho constitui, para muitos dos que vivem em Nova Iorque, uma paisagem repleta de anúncios sobre as mais recentes séries televisivas e as suas reposições. As equipas de marketing sabem que na imobilidade a que uma carruagem em hora de ponta nos obriga, se gera o escapismo propenso ao visionamento destas séries online. Em 2015, a artista Melanie Gilligan exibiu o seu trabalho em duas exposições diferentes em Nova Iorque, mas foi online que recentemente revi Popular Unrest,1 uma série de vídeos de 2010, originalmente apresentados na Chisenhale Gallery em Londres, e parte de uma trilogia que a artista terminou no ano passado com a série The Common Sense, apresentada no Casco: Office for Art, Design and Theory, em Utrecht (Holanda).

O enredo de Popular Unrest acompanha um conjunto de personagens invadidas por uma necessidade inexplicável de se agruparem, um sentimento de pertença e comunhão para lá da afinidade, amizade ou solidariedade entre elementos da mesma classe social e económica. Em simultâneo, ocorrem uma série de assassinatos, possivelmente causados por um software omnipotente intitulado The Spirit que processa virtualmente todos os aspectos da vida. À medida que o enredo se desenrola apercebemo-nos que o fenómeno dos grupos poderá estar relacionado com este software. Visto em retrospectiva e seis anos após o lançamento da série, The Spirit assemelha-se bastante ao modo como os mercados financeiros e as suas complexas tecnologias de informação são frequentemente apresentadas enquanto forma difusa de poder, gerado por todos os nossos inputs e aparentemente sem líder, mas que, no entanto, exerce uma violência real sobre a sociedade. Na narrativa esta violência é personificada por homicídios misteriosos que ocorrem a par dos referidos grupos. Popular Unrest e The Common Sense reflectem tanto a crise socioeconómica, as consequências de medidas de austeridade, as numerosas ocupações e “Primaveras”, como oferecem prognósticos preciosos sobre o poderão vir a ser os próximos anos, caso continuemos a assistir à capitalização das novas tecnologias como ferramentas sociais utópicas. Tendo-se experienciado uma versão particularmente dura da crise em Portugal, é possível que o pathos destas duas séries se faça sentir menos como a ficção científica que pretendem ser, e mais como pertencendo ao género sexploitation, uma vez que retratam a forma como relações afectivas poderão ser instrumentalizadas num mundo de trabalho acelerado e precário.

Permitam-me elaborar. Gilligan realça o facto de que, dentro da pan-computação desta economia, tudo o que é quantificado pode ser sujeito a trocas comerciais. E apesar dos laços afectivos que unem os grupos de Popular Unrest serem uma consequência positiva de um período de crise, é na tensão causada por esta que os laços revelam a sua natureza enquanto moeda de troca. A sua co-optação num mercado que tudo domina não precisa de ser tão sofisticada quanto o cérebro pan-computacional que Gilligan personifica através do software The Spirit. O escritor Brian Kuan Wood questiona no seu texto “Is It Love?”2 precisamente este efeito: não serão estes laços afectivos utilizados também, perversamente, para absorver as tensões sociais trazidas pela austeridade, e portanto postos ao serviço da destruição “criativa” que esta implica?

A emergência destes laços torna-se numa cifra tão real para as personagens fictícias de Gilligan em Popular Unrest como para um país como Portugal. Será este fenómeno completamente alheio ao sistema económico? Ou uma anomalia técnica que se visa incorporar enquanto uma forma evoluída de capitalismo? Será um excedente que poderá vir a criar novas e radicais economias? Em Portugal, pais e filhos vêem-se forçados a partilhar recursos de modo a suportar o desemprego e a precariedade operada pela crise, de modo que o reemergir de tais laços poderá ter assumido um aspecto mais espectavelmente freudiano, apoiados que estão na estrutura familiar mediterrânica. É possivelmente através desses laços que a Troika e o último governo de direita puderam impor estrategicamente a austeridade à classe trabalhadora que inscrevera os seus direitos na constituição de 1975. Assim, apesar da protecção constitucional, os baby boomers – os pais da minha geração – vêem-se, por um lado, forçados a ajudar os pais reformados nossos avós – que sofreram por sua vez cortes nas pensões, e, por outro, a partilhar casas e poupanças com a juventude desempregada. Conseguiu-se assim que esta classe média trabalhadora, que liderou o país em direcção à democracia, redistribuísse os seus rendimentos através destes laços afectivos, causando o seu empobrecimento generalizado. Aos novos-ricos da nação, que surgiram da destruição criativa da economia, não se exigiu o mesmo tipo de redistribuição, que não poderá ser quantificada de forma estritamente monetária.

Estreada em 2015, a série The Common Sense analisa as margens de um sistema tecnológico descentralizado como ponto de partida para interacções entre personagens. O enredo segue um grupo de estudantes que comenta a recepção de uma tecnologia chamada The Patch, inserida literalmente no interior do corpo das pessoas, e que passara há já algum tempo de um dispositivo sensorial unidireccional a bidireccional, pondo dois ou mais utilizadores em contacto com as emoções de cada qual. Os estudantes, precários ou endividados, usam a tecnologia para trabalhar mesmo durante os seus estudos, pagando assim as suas propinas. No entanto, após uma avaria inesperada no sistema bidireccional do The Patch, estes começam a organizar-se e a protestar contra o sistema educativo.

Gilligan situa inteligentemente a narrativa após um momento de utopia tecnológica, e a personagem do professor relembra-nos que o dispositivo “não passa de uma ferramenta”. Os estudantes ridicularizam as esperanças depositadas inicialmente na tecnologia, mas o entusiasmo no aparelho não é muito diferente daquele que acompanhou o início da internet, e que mais recentemente ressurgiu em defesa das redes sociais durante a Primavera Árabe; o mesmo que, provavelmente, irá reaparecer ressuscitado na retórica que acompanhará a emergente tecnologia blockchain.3 Tal como a campanha Wages for Facebook, ou a aplicação Emotional Labor criada por Joanne McNeil procura demonstrar, as trocas digitais das redes sociais, são na verdade novas formas de trabalho não-remunerado. Se somos avaliados quer nos nossos empregos, quer nas nossas relações sociais pela afabilidade com que comunicamos online, então essa comunicação também constitui trabalho. Assim, à medida que a UE incentiva o apoio a startups tecnológicas e à gentrificação como formas de superar a austeridade, devemos considerar ainda como tais ferramentas e produtos poderão vir a criar outras formas de desigualdade para lá das geracionais já referidas. Na sequência que abre The Common Sense, uma voz-off explica porque apenas 20% da população está empregada: a maior parte dos trabalhadores é obrigada pelos patrões a usar o dispositivo The Patch como um mecanismo de vigília e de gestão das suas interacções com os clientes.

A série tem dois finais alternativos, e à semelhança dos loops de feedback criados pelo The Patch, estes agem mais como dois canais intercomunicantes por onde reverbera a narrativa, do que como vários fins possíveis. Ambas as conclusões deixam em aberto se o aparelho tecnológico deverá ou não ser usado no combate à precariedade. Um dos personagens é uma neurocientista que procura usar o seu conhecimento para ajudar os estudantes. Esta descobre um órgão novo nos pacientes onde observa uma rejeição fisiológica do Patch. Quando começa a estudar o caso na empresa para a qual trabalha, e embora se mantenha idealista em relação ao potencial de tal descoberta apercebe-se que este será sempre propriedade intelectual do seu empregador. No outro fim, esta personagem decide usar a sua pesquisa pedagogicamente, ensinando crianças num jardim infantil a usar o dispositivo e a subjectividade partilhada, oferecida por este de forma alternativa. Os dois fins parecem propor uma reflexão em torno do seguinte diálogo entre professora e estudante: a professora diz, “Bem, para mudar o mundo precisas de começar pela subjectividade.” Quando o seu idealismo é questionado: “mas as condições do mundo moldam a subjectividade, e não o contrário”, a professora responde: “Sim, mas quem vai mudar as condições senão as pessoas e a sua subjectividade?” Este é o loop de feedback que todas as forças, internas e externas à narrativa, estão a tentar compreender e navegar.

Quando The Common Sense for disponibilizado online ainda este ano, os seus vários episódios terão um formato mais curto que Popular Unrest, portanto mais ao estilo das web-series. Outros exemplos de séries mais mainstream só agora começam a abordar alguns dos temas que a artista tem trabalhado desde o início da trilogia em 2008, sendo disso exemplo a brilhante dramatização tecnológica da série Black Mirror, ou a partilha sensorial e sinestésica que caracteriza os oito personagens de Sense8, a série de Andy Wachowski e Lana Wachowski. Assim, enquanto lidamos com a ressaca da Primavera Árabe, com os últimos anos de ocupações, e em Portugal procuramos superar as impostas desigualdades que dividem o norte e o sul da Europa através da formação de novas alianças e laços afectivos, podemos escolher ver esta série num telemóvel ou noutro dispositivo a caminho do trabalho, isto é, se ainda tivermos emprego.




Notas

1. A série encontra-se disponível em popularunrest.org
2. Brian Kuan WOOD, “Is It Love?” in e-flux.com [consultado a 28 de Janeiro de 2016].
3. A tecnologia blockchain promete recuperar o sentimento utópico da internet através da criação de hiperligações bidirecionais que irão ser disponibilizadas para rastrear os bitcoins de uma economia futura.