Parkour 2012-2014

Parkour

1. Título

O nome Parkour surgiu como uma hipótese entre outras tantas, discutidas ao longo de várias reuniões, primeiro informais depois ligeiramente mais formais, e foi o único consensual. Todos concordávamos que era um mau nome.

2. Identidade do projecto e posicionamento.

O Parkour não nasce de um projecto definido ou de um posicionamento específico, não haviam grandes intenções programáticas iniciais. Sempre achámos que termos como “identidade de projecto” e “posicionamento” se relacionam mais com um vocabulário das chamadas “indústrias criativas” do que com aquilo que queríamos fazer.

3. Início e fim: Como começa e porque termina?

Este espaço começa pela vontade de um grupo de artistas criar (mais) um espaço de exposição, criação, etc… Nasce no contexto muito específico de um prédio na Avenida da Liberdade, onde um conjunto grande de artistas tinha os seus ateliers e termina na mesma data em que esse mesmo prédio deixou de acolher os ateliers desses artistas.

4. Pessoas envolvidas.

O Parkour foi criado e nele trabalharam um grupo mais ou menos estável de oito artistas, de várias gerações e muito heterogéneo entre si. Sabemos que estamos a fugir à pergunta, mas achamos que não é necessário fazer uma lista de nomes, todo o processo foi muito colaborativo, muitas pessoas ajudaram. Raramente as decisões eram consensuais e gostávamos que não o fossem.

Em todas as exposições havia total carta-branca aos artistas. Com a ausência de curadoria não há um nós e um eles. Éramos todos artistas, só havia Nós. Todos os que expuseram, ou remodelaram o espaço, ou ajudaram a pintar as paredes, ou deram opiniões sobre exposições, ou quem fazia a identidade gráfica, todos fazem parte do Parkour.

5. Espaço e características.

O espaço que albergava o Parkour era uma sala no primeiro andar esquerdo do número 211 da Avenida da Liberdade. A sala tem (ou tinha) cerca de 18 metros de comprimento por 8 de largura, 5 janelas de um lado, duas portas do outro. O espaço tinha sido convertido para escritórios nos anos 70 do séc. XX. Antes de dar início às exposições que constituiriam a programação do Parkour foram retirados todos os elementos que tinham sido acrescentados até deixar só os originais do edifício da viragem do séc. XIX para o XX. No chão voltaram-se a ver as tábuas corridas que estavam escondidas por camadas de alcatifa, linóleo, cola, platex… Do tecto demasiado danificado só restavam as vigas de madeira ocultadas pelo tecto falso e quilómetros de tubagens e cabos. As paredes, portas e portadas foram pintadas de branco até ao nível do antigo tecto falso, deixando ver fragmentos de um antigo friso Arte Nova.

6. Periodicidade das exposições.

O espaço inaugurou com uma cadência muito matemática de uma exposição por mês. A exposição duraria três semanas e havia uma semana de montagem e desmontagem. Para nós esse ritmo inicial era importante, queríamos que o espaço aparecesse sem timidez. A curta duração das exposições, abertas apenas 3 dias por semana, devia‑se há inexistência de alguém que “abrisse” a exposição, esse papel era dividido por alguns de nós com o artista (ou artistas) que expunham.

7. Identidade gráfica.

A opção por evitar nomear pessoas não se aplica ao projecto gráfico. Estamos muito gratos pela identidade criada pela Ana Luisa Bouza. A identidade ajudou muito a fixar o que era o Parkour.

 

1. O que leva um conjunto de artistas (na maioria representado por galeria) a criar um espaço expositivo próprio?

Acho que o facto de pessoas na organização do Parkour serem representadas por galerias comerciais não se relaciona de todo com a abertura do espaço. Sempre pensámos o Parkour como um sítio à parte, mas não à margem; ao lado de… e não em vez de… Fizemos muitos projectos que não cabiam na programação de galerias comerciais ou espaços mais institucionais, contudo penso que esse não foi nunca o nosso argumento, nem sei se seria um argumento válido. O que fizemos é assim tão diferente do que uma galeria ou uma instituição faz ou pode fazer? Provavelmente não. Acho que a diferença fundamental é a lógica, contexto e condições que leva esta programação e não a programação em si. Nem uma galeria nem uma instituição pode funcionar com esta base de sociabilidade, de eleições afectivas, de caprichos e devaneios, até certo ponto. O Parkour não tinha nenhuma necessidade de viabilidade económica e a única responsabilidade que tinha era para com o contexto que o viu nascer.

2. Exposições e convites: Funcionamento e a lógica das escolhas.

Numa fase inicial, para arrancar com o programa, alguns dos artistas da organização faziam uma exposição (evento, etc…) e convidavam um artista para fazer uma outra, ou propunham uma colaboração, ou o formato que melhor entendessem. Passando esta primeira fase e já tendo mais tempo de antecedência, os nomes a propor eram discutidos entre nós, convites eram feitos, eram aceites ou recusados, as ideias eram discutidas entre todos ou com quem aparecesse nas reuniões.

3. Olhando para os dois anos e meio de actividade é perceptível que o modelo expositivo individual foi privilegiado, porquê?

A ideia do Parkour era privilegiar o modelo de exposição individual por parecer o mais generoso para os artistas, e também o com melhores garantias de qualidade no espaço sem curadoria ou direcção num sentido mais clássico. O formato contudo variava, o importante era que fosse o mais adequado ao que o artista ou os artistas queriam fazer. A intervenção de mediação curatorial foi praticamente inexistente. Não podemos deixar de notar o elevado número de colaborações entre artistas, muitas pela primeira vez, e muito pouco óbvias. Não podemos deixar de subtrair daí uma vontade de partilha e de diálogo entre os artistas. Esse era o nosso espírito.

4. Quais as maisvalias e as dificuldades de um espaço autónomo gerido por artistas?

No fundo esta pergunta resume-se a dois factores: dinheiro e escala. Na perspectiva financeira, a grande dificuldade foi a falta de dinheiro, queríamos ter sido mais generosos com os artistas, mas não era possível, ajudávamos em tudo o que podíamos. Também não queríamos a parte burocrática de passar a vida atrás de financiamento, não podíamos programar com muita antecedência porque a permanência no espaço não era garantida, etc. Não queríamos perder essa capacidade de resposta rápida, uma certa liberdade de acção e irresponsabilidade. Só havia uma quantidade muito limitada de tempo que cada pessoa podia despender com a organização do Parkour, todos os envolvidos são artistas e têm o seu trabalho para fazer. Este não era o emprego de ninguém. Só nos era possível manter o programa porque havia um espaço físico sem custos, essa era a nossa concha.

Em relação à escala, este era um projecto pequeno, e temporário. Muitos varriam, pintavam, instalavam, limpavam, escreviam. Tudo era a função de todos, sem hierarquia. E essa era a parte que nos dava também algum gozo. O Parkour só existiria enquanto sentíssemos que era importante despender todo este esforço.

5. Enquanto espaço expositivo o Parkour foi pensado tendo em vista o trabalho de outros espaços expositivos?Que relação existia entre o Parkour e os restantes espaços, projectos e ocupantes no Espaço Avenida, como a Kunsthalle Lissabon, The Barber Shop, e os ateliers?

O Parkour não tem nada de revolucionário na sua estrutura, é um clássico “Artist-run-space” (usando o termo importado), como tantos outros por esse mundo fora e com alguns exemplos muito interessantes em Portugal. Não havia nenhuma preocupação de sermos “originais e diferentes”. Havia contudo dois outros projectos no mesmo edifício, muito bem estruturados e que respeitamos muito, e não era de todo interessante para nós fazer uma programação como a da Kunsthalle Lissabon ou da Barber Shop. Eram coisas bastante diferentes, se há uma Kunsthalle, nós fomos o Kunstverein, se há a Barber Shop nós fomos o Nail Bar.

A presença dos ateliers no prédio foi uma condição fundamental para a existência do Parkour. Todos tínhamos ali o nosso local de trabalho, foi desse encontro que se gerou a ideia de fazer este espaço, a presença de tantos artistas garantia uma certa massa crítica de início, a proximidade dos estúdios também garantia uma operacionalidade prática do espaço nas montagens e na vigilância das exposições. Pode-se dizer que nunca faltou um martelo nas montagens.

6. Retrospectivamente, como vêm a importância do trabalho desenvolvido e mostrado no Parkour naquele período específico de tempo e no contexto artístico português?

Acho que não nos cabe a nós avaliar a importância do nosso trabalho. Nós fizemos aquilo que achámos importante, interessante e que nos deu gozo fazer. Claro que nem entre nós achamos tudo o que fizemos importante ou interessante.

7. Terminado o Espaço Avenida foi equacionada uma transição do Parkour para outro local?

Sim, considerámos fazer outra coisa, mas rapidamente percebemos que o Parkour nasceu naquele sitio e só fazia sentido ali.

 

2012

Pedro Neves Marques O Processo de Integração

André Romão A Praga da Dança

Pedro Barateio Tristes Selvagens

Diogo Evangelista No Future in that Place

Ana Manso, André Sousa, Gonçalo Sena, Vanja Smilnavic Gótico

Sergio Carronha Os Seres Sensíveis no Mundo da Forma e no Mundo do Desejo

 

2013

Pedro Tropa Figure of Collapse

Catarina de Oliveira As Crónicas do Caranguejo Azul

Joana Escoval Outlaws in Language and Destiny

Catarina Dias, João Queiroz Nothing comes from Nothing

Pedro Henriques Diagrama e Deslize

Bruno Cidra, Gonçalo Barreiros Fazer Andar

Gustavo Sumpta Enquanto o Sangue corre a Pique

António Bolota, Carla Filipe António Filipe

 

2014

Edmund Cook They Unduloping

Francisca Carvalho Nove Desenhos

João Maria Gusmão e Pedro Paiva Animales que de Lejos parecen Moscas

João Marçal Goin’ Blind

Armanda Duarte, Eduardo Peterson, Maria Teresa Silva, Mariana Ramos, Marta Caldas, Thierry Simões Elevação / Suspensão / Afinação

Gil Heitor Cortesão, Luís Paulo Costa Uma Sala, duas Pinturas, um Cartaz, duas Pinturas, uma Sala

Eva Barto, Helene Hellmich, Thimas Teurlai, Pauline Toyer, Ana Vaz, Julie Vayssière (organizada por François Piron) Avoiding Exhaustion, Just in Time

Mariana Silva Audience Responce Systems

Miguel Ângelo Rocha Modelos do Invisível

Jaime Lebre Gato por Lebre (Tasty Stuff)

Belén Uriel Lama no Sapato


Vista do espaço © Parkour