PERGUNTAS A:

Sara & André, Catarina Rosendo

Tema: Museu Nacional De Arte Contemporânea – Museu Do Chiado

Como enquadramento destacamos que a 4 de Fevereiro de 2014 Jorge Barreto Xavier, o então Secretário de Estado da Cultura, anunciou a ampliação do espaço expositivo do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (MNAC – MC) para a área que o antigo Governo Civil ocupava no mesmo quarteirão.

A 5 de Fevereiro de 2014, Barreto Xavier fez ainda publicar em Diário da República – Despacho 1849-A/2014 “a afetação da denominada Coleção SEC à Direção-Geral do Património Cultural, com incorporação das suas obras no Museu do Chiado / Museu Nacional de Arte Contemporânea / Casa – Museu Dr. Anastácio Gonçalves, salvaguardando-se a observância de Protocolos e ou Acordos entretanto celebrados.”

Olhamos novamente para este caso, tendo presente a recente nomeação de Aida Rechena para a direcção da instituição, passados cinco meses sobre a demissão de David Santos que desde Dezembro de 2013 assumia o cargo. Sublinhamos este afastamento em ruptura com a tutela dias antes da inauguração do novo espaço e de Narrativa de uma Coleção: Arte Portuguesa na Coleção da Secretaria de Estado da Cultura (1960-1990), exposição que ficou polemicamente marcada pela revogação do despacho atrás citado.

 

“Exercício de Estilo”, a exposição comissariada por David Santos que apresentaram no MNAC – MC em 2014 reveste-se de uma importância simbólica pela reaproximação do museu à arte contemporânea. Como pensam o resultado desta experiência e em que medida vêem o MNAC – MC como local de exposição, reflexão e valorização do trabalho de jovens artistas?

SARA & ANDRÉ (artistas)

Visto da perspetiva de autores, que é obviamente parcial, supomos que essa reaproximação tenha sido cumprida. Pessoal e profissionalmente, a exposição foi importante na medida em que foi a nossa primeira individual num museu, o que possibilitou trabalhar com condições, económicas e não só, muito superiores ao que é comum no circuito de galerias, instituições mais pequenas e espaços alternativos em que habitualmente nos movemos. Finalmente destacaríamos o alcance em termos de público e o mediatismo que uma exposição num espaço destes acarreta, algo a que também não estamos assim tão habituados. Tirando isso, não conseguimos responder a se a exposição se revestiu dessa importância simbólica no contexto da programação do Museu, isso teria que ser perguntado a outra pessoa, podemos apenas dizer que acreditamos que o então Diretor e curador David Santos, ficou contente com o resultado.

Relativamente à segunda parte da questão, como começar? Obviamente que o MNAC – MC, desde logo pelo seu nome, Museu Nacional de Arte Contemporânea, e sendo o único museu do estado com essa designação, tem, ou pelo menos deveria ter, uma responsabilidade nesse sentido. Mas infelizmente, por várias razões que não conhecemos em profundidade, e que supomos serem principalmente económicas, e direta ou indiretamente, também políticas, não a tem cumprido, pelo menos em continuidade.

Na nossa memória (séc. XXI) o Pedro Lapa foi talvez o diretor que conseguiu realizar esse desígnio com maior coerência e qualidade, lembramo-nos em particular das exposições do João Onofre e da dupla Paiva + Gusmão, bem como as dedicadas a Columbano e Joaquim Rodrigo, para referir também artistas de outras gerações. O David Santos não chegou, infelizmente, a ter tempo suficiente para cumprir esse propósito, ao qual achamos que também era particularmente sensível. Mas na nossa perspetiva, supomos que os principais responsáveis não sejam os diretores, mas sim quem está acima deles, que tanto quanto percebemos, não tem oferecido as condições ideais para que cada diretor possa cumprir o seu mandato como gostaria. Se não estamos em erro, e ainda que por diferentes razões, os últimos 3 diretores do MNAC – MC afastaram-se antes do final do seu contrato (Helena Barranha, Paulo Henriques e David Santos).

A título de exemplo lembramos alguns dos episódios que levaram à demissão do David Santos e que nos parecem paradigmáticos da política cultural levada a cabo nos últimos anos. Em Fevereiro de 2014, no auge da polémica da venda dos 85 quadros do Miró provenientes da nacionalização do BPN, é anunciada, nada inocentemente a nosso ver, a afetação da coleção SEC ao MNAC – MC, e pouco depois a ampliação do Museu, prometida desde os anos 90 para o edifício do antigo Governo Civil. Esta ampliação inauguraria com uma grande mostra dedicada a esta (nova parte da) coleção (do MNAC – MC). Em Julho de 2015, com a polémica dos Mirós praticamente esquecida, o despacho relativo à incorporação da coleção no MNAC – MC é revogado e a ampliação do MNAC – MC é inaugurada entre episódios de censura, demissões, manifestações e “fura greves”, com obras cujo destino é agora incerto. Com esta longa e algo mal contada parábola, pretendemos dizer que tapar buracos e atirar areia aos olhos não é política cultural, é simplesmente tapar buracos e atirar areia aos olhos, e que enquanto assim for, dificilmente poderemos discutir em profundidade, aspetos mais específicos relativos à programação do MNAC – MC.

Para terminar, por vezes perguntamo-nos, mesmo sabendo que vivemos num país pequeno e relativamente pobre, como é que o equivalente português, de uma Tate Modern, Pompidou ou Reina Sofia, nas capitais europeias mais próximas (Londres, Paris e Madrid) é o MNAC – MC? Bem trabalhado, daria uma anedota daquelas: está um português, um francês e um inglês…

 

Considerando que a 5 de Abril de 1990 foi assinado um protocolo entre a Secretaria de Estado da Cultura e a Fundação de Serralves em que se establece o depósito da Colecção SEC a 30 anos no museu da Fundação, qual é a sua pertinência actual no contexto do Museu Serralves e de que forma essa colecção tem sido trabalhada nas últimas décadas?

CATARINA ROSENDO (Investigadora Integrada do Instituto de História da Arte da FCSH – UNL, colabora com a Fundação de Serralves em projectos de investigação sobre a Colecção de Arte.)

A denominada Colecção SEC que se encontra na Fundação de Serralves é parte de um acervo cuja constituição se iniciou com o Secretariado Nacional de Informação do período pré -democrático e que atravessou, depois de 1974 e até 1990, sucessivas Secretarias de Estado e um Ministério da Cultura. Este depósito, que desde cerca de 1979 foi destacado com o objectivo de constituição do Museu Nacional de Arte Moderna – embrião do Museu de Arte Contemporânea de Serralves –, inclui também uma série de aquisições realizadas pela SEC com o propósito de integrar a colecção do referido museu. Antes da constituição formal da Fundação de Serralves, em 1989, diversas exposições divulgaram as obras do acervo do futuro museu, reunidas mediante depósitos, exposições-concurso, doações e (em menor número) aquisições. Três delas incluíram amplamente obras da Colecção SEC: a exposição “Programa e elenco das obras do acervo do Museu Nacional de Arte Moderna ou nele integráveis”, apresentada pela Comissão Organizadora do MNAM no Museu Nacional de Soares dos Reis, em 1980; as duas mostras “Pintura Portuguesa: Obras destinadas ao Museu de Arte Moderna do Porto”, organizadas pelo Ministério da Cultura na Galeria Almada Negreiros, em 1985; e, no mesmo ano, a exposição “Colecção de pintura do acervo do Museu Nacional de Arte Moderna do Porto”, organizada pela Comissão Instaladora do MNAM novamente no MNSR.

As várias colecções e obras que integram a actual colecção de arte da Fundação de Serralves têm como ponto de partida o núcleo inicial da Colecção SEC, ressalvando -se a parte que, desde 1997, está cedida ao Museu do Chiado e que respeita sobretudo os modernismos portugueses representados por obras de, entre outros – Guilherme Santa-Rita, dos anos 1910, e António Dacosta, dos anos 1940. Em 1999, a exposição inaugural do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, “Circa 1968”, estabeleceu os critérios de internacionalização da Colecção e a localização do seu eixo conceptual no ano de 1968 e numa intencionalidade de experimentação que tem permitido alargar a cronologia da Colecção até ao presente, através da detecção de afinidades transversais às diversas sensibilidades de cada tempo. A Colecção SEC em depósito em Serralves foi fundacional neste processo, ao integrar obras dos anos 1960 e 1970 de artistas que as retrospectivas dos anos 1990-2000, para as quais Serralves contribuiu de forma decisiva, fixaram como essenciais à contemporaneidade artística nacional, estabelecendo também a base a partir da qual se escolheu a incorporação de outras obras dos mesmos artistas na Colecção. A Colecção SEC tem auxiliado também a articulação de diálogos entre obras portuguesas e suas congéneres estrangeiras. Esta situação tem sido coadjuvada por um trabalho de correcção e ampliação da informação documental associada desde a origem à Colecção SEC e, desde 2009 e, mais incisivamente, a partir de 2014, por novas metodologias de investigação que têm dado continuidade ao processo de mapeamento das convergências, paralelismos e singularidades que têm enriquecido perspectivas e contribuído para uma maior inserção da arte portuguesa no contexto artístico e teórico internacional. Este último objectivo, que tem sido conduzido, no âmbito dos museus portugueses, de modo praticamente exclusivo por Serralves, está patente nas exposições “Circa 1968” e “Serralves 2009: A Colecção” e na mais recente “Histórias” de 2014, bem como nas mais de 140 exposições centradas na Colecção de Serralves, incluindo itinerâncias em Portugal e no estrangeiro, que desde 1991 a Fundação e o posterior Museu organizaram, e que sempre integraram obras da Colecção SEC.

Perante a polémica em que a “Colecção SEC” tem estado envolvida desde o Verão de 2015, é importante ressalvar que, não obstante a minha colaboração com a Fundação de Serralves na investigação em torno da sua Colecção de obras de arte, a resposta às questões que me foram endereçadas pelas editoras da “Re.vis.ta” decorre da minha condição de investigadora independente e não pretende representar os pontos de vista que Serralves possa ter sobre o assunto. Todos os dados mencionados resultam de pesquisa realizada através da consulta de catálogos de exposição, livros publicados, imprensa e online.