PERGUNTAS A:

Adelaide Duarte, Julião Sarmento, Luiz Teixeira de Freitas, Luiza Teixeira de Freitas, Mateo Consonni e Gonçalo Jesus, Vera Appleton, Raquel Henriques da Silva

Tema: Mercado Artístico em Portugal

Pensar sobre arte contemporânea ignorando o papel omnipresente e transversal que o mercado ocupa na regulamentação, funcionamento e economia desse campo, corresponde a uma redução do conhecimento e das leituras que podemos tecer acerca da produção artística actual.

Assumimos portanto como indispensável conhecer a opinião de alguns agentes que intervêm de formas diversas nesse campo, perspectivando e multiplicando visões sobre um assunto comum. Para tal, e partindo de uma lógica próxima ao inquérito, seleccionámos casos que consideramos interessantes para mapear a diversidade de escalas, práticas, posições, acções e relações entre mercado, artistas, espectadores e coleccionadores. De um leque abrangente, onde carece a relação Porto-Lisboa, apresentamos o conjunto de respostas que recebemos.

 


No pólo artístico de Alvalade, a Appleton Square cumpre 10 anos de actividade. A sua missão é ampla. Quais os pontos de contacto e as diferenças entre a área de acção da Appleton Square face às galerias comerciais?

VERA APPLETON (directora – Appleton Square, Lisboa)

A minha resposta depende do próprio conceito de galeria comercial.

No início considerava que o principal elemento diferenciador entre uma galeria e a Appleton Square, era o facto de a Appleton Square não representar artistas. Hoje, passados dez anos, existem cada vez mais exemplos de espaços expositivos que não representam artistas, mas que no entanto se enquadram no estatuto de galeria comercial. Por isso parece-me agora que o que diferencia a Appleton Square da galeria comercial é o facto de a sua premissa não permitir que qualquer objectivo comercial interfira ou se sobreponha à criação artística. A prioridade é sem dúvida a exposição, mas no entanto é possível vender.

A Appleton Square não se insere numa categoria pré-existente. Tem um estatuto próprio. Aproxima-se da galeria na medida em que é possível comercializar obras de arte. Aproxima-se simultaneamente do espaço institucional, visto que para não depender de vendas procura apoios e mecenatos.

Na sua relação com as galerias comerciais, a Appleton Square é muitas vezes considerada um espaço complementar. Um espaço onde artistas representados por essas galerias, podem apresentar determinado trabalho que por alguma razão ali faz mais sentido, ou é para ali mais adequado sem preocupações de foro comercial.

Uma das maiores dificuldades com que nos deparamos é que justamente para que isso seja possível – essa ausência de preocupação com a possibilidade de venda, que gera obviamente uma maior liberdade na criação – temos muitas vezes que ser mais criativos na gestão do processo, recorrer a apoios específicos, e estar perfeitamente sintonizados com o artista, que produz o trabalho que ali pretende apresentar, tendo esse factor em conta.

Por fim, a característica mais marcante da Appleton Square e que a diferencia radicalmente da galeria comercial, é o facto de não repetir uma exposição do mesmo artista. O espírito com que o artista se envolve é assim diferente: “just one shot”.

É um desafio que pode ser surpreendente ou perigoso. Mas é desse risco que é feita a natureza da Appleton Square e ao fim de dez anos não me arrependo mesmo dos erros. Tudo faz parte de um longo processo de aprendizagem e evolução.

 


A Galeria Madragoa (Lisboa, 2016) foi considerada pelo site Artsy.com uma das 15 galerias responsáveis por colocar novas cidades no mapa-mundo da arte. Como olham para esta categorização dentro do contexto galerístico português? E quais as principais razões que vos levaram a abrir este espaço em Lisboa?

MATEO CONSONNI E GONÇALO JESUS (galeristas – Galeria Madragoa, Lisboa)

Estamos muito contentes por termos sido escolhidos pelo Artsy.com, o nosso objectivo desde o início foi e é ter uma forte projecção ao nível internacional. Somos uma galeria muito jovem, com menos de um ano, e parte da atenção que tivemos passa por aí e pelo facto de já termos participado em algumas feiras internacionais. Lisboa é uma cidade que mesmo estando tipicamente fora do “mapa-mundo da arte”, tem uma afluência grande de visitantes por ser uma entrada para a Europa e pelas fortes ligações com a América-Latina e mundo Lusófono. Comparativamente com outras capitais europeias, como Londres ou Paris, os custos ao nível de renda, materiais e produção de trabalhos são consideravelmente mais baixos. Há uma “cena artística” em crescimento com um forte dinamismo e criatividade e, apesar de existirem algumas galerias de arte contemporânea, sentimos que ainda existe espaço para crescer e que poderíamos contribuir positivamente para o contexto galerístico português. Tivemos também sorte com o momento que Lisboa atravessa actualmente, sendo um dos destinos turísticos de eleição nos últimos anos. No que diz respeito à arte, a abertura do MAAT e a ARCOlisboa contribuíram fortemente para promover a cidade.

 


Em 2016 realizou-se a primeira edição da ARCOlisboa. Enquanto coleccionador, como encara a presença da marca ARCO em Lisboa, enquadrada globalmente no conjunto das feiras de arte internacionais?

LUIZ TEIXEIRA DE FREITAS (coleccionador)

Se olharmos o panorama da arte contemporânea em Portugal e o momento que vivemos no País, diria que é sempre bem-vinda a existência de uma feira de arte de qualidade, com galerias internacionais que, sem dúvida, ajudam a divulgar os artistas que aqui trabalham. Analisando, porém, a questão sob uma ótica internacional não me parece que o mercado necessite ou comporte mais uma feira de arte. O mercado primário encontra-se neste momento saturado com a profusão de feiras e inúmeros outros eventos que têm como objectivo a venda de obras de arte. Neste contexto, fica difícil imaginar que grande parte do que se oferece hoje nas centenas de feiras que se realizam anualmente ao redor do mundo seja realmente arte – tenho muitas dúvidas. O que se produz atualmente para as feiras está mais próximo de produção em série para satisfazer o mercado de consumo e entretenimento. Neste sentido, apesar das boas intenções de alguns galeristas estabelecidos em Portugal e da beleza do local onde se realiza a ARCOlisboa, pelo menos para a Arte esta feira é desnecessária.

 


Conhecido como um dos artistas portugueses que maior notoriedade alcançou no contexto internacional e que mais vende em Portugal, como pensa a relação de artistas consagrados com as galerias que os representam?

JULIÃO SARMENTO (artista)

As relações dos artistas (consagrados ou não) com as galerias que os representam são sempre, como de resto todas elas, essencialmente relações de poder. Tudo isto funciona como o princípio dos vasos comunicantes: os níveis de testosterona tendem a igualizar-se. Quanto mais poderoso é o artista menos poder terá a galeria e vice-versa; por consequência a tendência é a repartição igualitária desse poder. Duma maneira geral, e por razões óbvias, os artistas tendem a preferir estar vinculados a galerias com mais poder do que eles próprios. Mas esse sistema nunca funciona pois, por outro lado, as galerias tendem, também por razões óbvias, a não estar interessadas no trabalho de artistas nos quais não adivinhem um potencial de poder igual ou superior ao seu próprio. Posto isto, a tendência é a repartição equitativa do poder absoluto. A regra é, portanto, depararmo-nos com as galerias mais fracas a representarem artistas mais fracos e as mais fortes a representarem artistas com mais fôlego, chamemos-lhes assim.

Mas existem também as relações de afecto. Por vezes perigosas!… quando as relações profissionais se misturam e confundem com as relações pessoais, podem provocar um profundo desequilíbrio nos entendimentos de ambas as partes. É sempre saudável e preferível uma discreta distanciação emocional. Mas nem sempre isso é possível!… Afinal a relação artista/galerista tende frequentemente a aproximar-se perigosamente a uma relação conjugal e, por vezes, a caminhar para um divórcio inevitável e prejudicial a ambas as partes. E tudo por causa dos afectos!…

Outro aspecto que me parece fundamental nesta relação é a questão geracional. Historicamente os bons galeristas tendem a defender e a representar sobretudo os artistas da sua própria geração. Isto é praticamente uma regra de ouro. Raramente a relação artista/galerista funciona quando existe uma tremenda décalage geracional entre ambos. Raramente, é verdade. Mas às vezes acontece…

Posto isto, nada mais me ocorre agora a este respeito. Estas coisas fluem, são orgânicas e sem regras precisas. E por falar em relações de afecto, a minha galerista Cristina Guerra ficaria muito triste se eu não falasse dela neste pequeno texto. Mesmo que não viesse a propósito. QED.

 


Centrado em múltiplos de arte e edições limitadas de artistas e arquitectos contemporâneos, o Gabinete (2015) localizado no Príncipe Real (Lisboa), apresenta-se como editora e loja. Considerando o universo do coleccionismo em Portugal, qual é o vosso público-alvo?

LUIZA TEIXEIRA DE FREITAS (curadora – Gabinete, Lisboa)

Acho importante sublinhar antes de mais, o Gabinete agora conta também com uma programação eclética e multidisciplinar de projetos, que vem complementar o papel que o espaço já vinha desempenhando como editora, loja de múltiplos, edições de arte contemporânea. A programação é uma colaboração minha com a Ana Baliza.

A ideia do Gabinete é ser um espaço de referência para os mais diversos públicos e por isso a criação deste novo programa procura uma independência e liberdade nos conteúdos e traz um variado leque de aproximações e interpretações ao múltiplo.

O público-alvo é variado porque visamos englobar um universo vasto que vai desde o colecionador focado, sério e obsessivo até ao colecionador que ainda nem sabe que o é, à pessoa interessada, ao jovem que quer aprender mais, ao artista que coleciona obras de colegas artistas. A edição existe mesmo para isso, para democratizar a obra de arte e torná- la acessível a um público mais vasto. No Gabinete temos mesmo essa potencialidade de mostrar e incitar um colecionismo novo, jovem, curioso – não necessariamente na idade, mas acima de tudo no espírito.

No que diz respeito ao livro de artista, é também um formato que nos interessa mostrar neste contexto, traz um outro público. O livro tem esse caráter intrínseco ao formato e ao próprio trabalho desenvolvido pelo artista de fazer com que o tempo desacelere, aproximando pessoas que estão mais disponíveis para ver, perceber e interagir com os trabalhos.

Esta versatilidade do Gabinete aparece e existe neste campo onde as possibilidades são mesmo infinitas e é isso que nos incentiva e nos dá prazer na realização de cada projeto.

 


Como se enquadra a pós-graduação da Universidade Nova de Lisboa em Mercado da Arte e Coleccionismo no contexto português e que distinção oferece esta formação relativamente a programas semelhantes?

ADELAIDE DUARTE e RAQUEL HENRIQUES DA SILVA (coordenadoras da pós-graduação em Mercado da Arte e Coleccionismo – FCSH)

A Pós-Graduação em Mercado da Arte e Colecionismo vem dar resposta à necessidade que se sentia na falta de formação avançada no setor do mercado da arte primário e secundário, no nosso país. O Mercado da Arte e Colecionismo é tema de investigação recente em Portugal, onde a historiografia e os estudos são escassos e pouco representativos. Sendo um setor ativo, criador de riqueza e com excelentes possibilidades de empregabilidade, carece de uma oferta académica exigente e especializada que promova competências para boas práticas neste domínio. O curso de pós-graduação vem, assim, preencher esta necessidade na formação académica e na investigação.

O Instituto de História da Arte definiu como objetivos gerais produzir, sistematizar e difundir o conhecimento teórico e prático do mercado da arte e do colecionismo. Ao nível das competências específicas, propôs-se distinguir a especificidade dos mercados da arte antiga e da arte contemporânea, problematizar a produção artística na sua relação com a sociedade e com o mercado económico, estudar criticamente os mercados globais da arte nas suas flutuações relacionáveis com a economia. Procura também identificar o papel dos agentes e dos intermediários nas dinâmicas do sistema da arte, da sua produção, divulgação legitimadora e do consumo.

A singularidade deste programa curricular reside na estrutura tripartida adotada: a história da arte e da cultura colecionista é estudada no cruzamento com o funcionamento do mercado da arte, português e global, e com as políticas para o direito e a ética. Por outro lado, estabeleceram-se parceiras estratégicas que permitem oferecer uma componente prática e profissionalizante à pós-graduação (a Leiloeira Palácio Correio Velho, o Museu Nacional de Arte Antiga e a Leal Rios Foundation).