PERGUNTAS A:

Filipa Oliveira, Denise Pollini, Luís Miguel Oliveira, Catarina Medina

Tema: Públicos

 

Os públicos. Proliferam conferências, formações e especializações académicas sobre o tema. Para quem começa a trabalhar na área dos museus, a relação com os públicos é muitas vezes a primeira ou a única porta de entrada numa instituição. Falar sobre o público da arte contemporânea não é fácil. Trata-se de uma entidade plural muitas vezes idealizada.

Fugindo conscientemente ao campo de reflexão dominado pelos serviços educativos – área que no contexto dos museus se apropriou da questão, muito devido à negligência de outras áreas museológicas – fazemos nossas as palavras de Raquel Ribeiro dos Santos, uma voz activa e de reposicionamento: ‘serviço educativo’. A verdade é que cada vez menos ‘servem’, e cada vez menos ‘educam’.

Procurámos ouvir diversas vozes: desde Denise Pollini, responsável pelo Serviço Educativo do Museu de Serralves, à perspectiva da curadora Filipa Oliveira, com um caso de descentralização; incluímos Luís Miguel Oliveira, programador num museu com público específico; e Catarina Medina, directora de comunicação do Teatro Maria Matos, espaço de cruzamento multidisciplinar com forte identidade.

 

O Fórum Fundação Eugénio de Almeida em Évora apresenta desde 2013 uma programação voltada para a arte contemporânea. Depois de exemplos como o Museu de Arte Contemporânea de Elvas, o Fórum foi um dos vários espaços que no decorrer do século XXI se instalou fora dos grandes centros urbanos, Lisboa ou Porto. Sendo o Alentejo uma das zonas do país onde a desertificação demográfica é mais evidente, perguntamos se a experiência na direcção do Fórum afectou a sua noção de descentralização cultural?

FILIPA OLIVEIRA (directora artística – Fórum Fundação Eugénio de Almeida, Évora)

O Fórum Eugénio de Almeida tem vindo a desenvolver uma estratégia de descentralização artística desde 2002, quando abriu o primeiro Fórum. No início mais centrado na divulgação dos grandes nomes da arte moderna como Picasso, Duchamp ou Miró. De facto, é a partir de 2013 que há uma viragem na linha programática e esta passa a centrar-se no contemporâneo. Com a minha entrada em janeiro de 2015, a missão estratégica do Fórum concentra-se em pensar um centro de arte que estivesse fortemente enraizado na comunidade local onde está inserido, mas que simultaneamente estabelecesse pontes e diálogos com o exterior – regionais, nacionais e internacionais. Assim a programação dos últimos dois anos foi pensada tendo como eixo central esta questão. Queríamos pensar que este Fórum era em primeiro lugar para os Eborenses. Que tinham direito e mereciam um centro de arte que mostrasse projetos de grande qualidade artística, projetos feitos para Évora, mas que podiam estar em qualquer outro lugar do mundo. E muito do nosso trabalho não era apenas apresentar esses projetos de qualidade, mas ser uma ponte de leitura e de entendimento para o público.Sentíamos que praticamente não existiam projetos nas artes visuais de nível internacional fora de Lisboa e do Porto, com raras exceções, e este ponto, de descentralizar a cultura, de trazer o mais contemporâneo onde anteriormente não vinha, era uma parte importante da minha programação.

Logo na primeira exposição que fiz no Fórum, chamada ‘O Museu a Haver’ – pensava exatamente qual poderia ser o lugar dos museus nas sociedades e comunidades onde se instalam – mostrámos um trabalho do artista Luis Camnitzer que era um vinil na parede (mas também um compromisso que o Fórum assumia com o artista) e que dizia: “O Museu é uma Escola. O artista aprende a comunicar-se. O público aprende a fazer ligações”. Este espírito do museu/centro de arte que se transforma num espaço onde os artistas comunicam o seu trabalho e o público cria relações entre o que vê, o que conhece e o que vive, serviu muito para moldar o meu projeto no Fórum durante estes três anos.

Esta experiência de pensar o local, de programar para um espaço específico durante um prazo alongado, serviu também para questionar e refletir sobre o meu trabalho de curadoria. Porque fazemos o que fazemos? Porque e para quem é que faço exposições? E com que objetivo? Passei a interessar-me muito pelo dia depois da inauguração. Todos os dias depois da inauguração, os dias em que cada visitante entra no espaço. Cada vez que isso acontece, acontece também uma micro inauguração, um micro momento de revelação, de dar a ver. Assim, o nosso trabalho concentrou-se nesses micro-eventos.

 

Num contexto de solicitações e expectativas cada vez mais variadas e exigentes, como se articula a relação entre os públicos e os museus de arte contemporânea, e que modelos teórico-metodológicos de transformação face à ideia convencional de Serviço Educativo destaca como referências para o seu trabalho?

DENISE POLLINI (investigadora em práticas de mediação artística e cultural)

Pensar a relação entre os públicos e os museus, lembra-me muitas vezes a frase do poeta Henri Michaux “Sem as cabeças que se voltam não há carrossel”. Os museus existiriam sem que houvesse essa entidade, misteriosa e mutável – o público – cuja existência é imperativa nas declarações sobre a missão dos museus?

Muito tem sido dito sobre o que os museus têm para oferecer ao seu público: instrução, fruição, autoconhecimento, espetáculo, entretenimento… Acredito que neste momento, mais do que nunca, seria útil pensarmos no inverso destes axiomas. Portanto, não em tudo o que um museu pode fazer por seu público, mas naquilo que o público pode fazer pelos museus (e o que os museus têm a fazer por si mesmos neste reposicionamento).

Este exercício é sobretudo útil como ferramenta para pensarmos sobre como os museus, particularmente os de arte contemporânea, podem projetar seu futuro e manter-se relevantes. E, como uma segunda reflexão, ajudar-nos-á a analisar o papel que os serviços educativos desempenham nestas instituições.

Em “Unglamorous Tasks: What Can Education Learn from its Political Traditions?” (e-flux #14, March 2010), Nora Sternfeld desenvolve uma articulação extremamente lúcida sobre o trabalho do curador e do educador, particularmente sob a óptica do humilde exercício da educação.

Nascidos a partir de uma longa tradição dos museus ligados à crença iluminista da “educação do povo”, os serviços educativos herdaram também essa posição “humilde” perante as outras funções dos museus, principalmente ante a glamorosa função do curador. Se o carrossel não existe quando as cabeças não se voltam, o que será que o faz girar? Quem faz os olhares se voltarem? Será o comissário? O patrocinador da exposição? O público?

Creio que o que faz o carrossel girar é precisamente a relação, o vínculo, entre a instituição e esta entidade a que genericamente chamamos de público, e é nesta dinâmica que os serviços educativos contribuem. Por serem serviços que estabelecem, por intermédio de seus diversos programas, este contacto direto com o visitante dos museus, os educativos possuem o privilégio de ter a contiguidade diária com a riqueza que advém destas trocas. Logo, não somente de referências se faz um serviço educativo, mas da qualidade da presença e da escuta que instaura, na ética do vínculo e na inter-relação que afirma.

Embora existam muitas fricções na relação entre o público e os museus de arte contemporânea – por estas não estarem pacificadas com a passagem do tempo – são geradas faíscas e com elas a potência de um devir enriquecido.

Se a reflexão sobre aquilo que o público tem a oferecer aos museus nos ensina alguma coisa, é que devemos instaurar e ampliar cada vez mais os canais de escuta e fortalecer esta relação. Os serviços educativos não são os únicos a fazê-lo, mas por reafirmarem estes princípios diariamente são interlocutores privilegiados nesta prática e possuem o potencial de contribuir ainda mais.

 

Longe da noção tradicional de museu e espectador, a Cinemateca é um caso de estudo especial para entender a relação entre a adesão do público e a programação em Cinema. Desde a sala mais vazia, passando pelos “visitantes” regulares, às sessões lotadas (ou até mesmo conferências super lotadas!), a cinemateca tem um público fidelizado e simultaneamente novo. Para quem se programa hoje em dia?

LUÍS MIGUEL OLIVEIRA (programador – Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema)

1) Não acredito muito – ou só acredito até certo ponto – em tipologias de público e espectadores. Há sempre uma linha a partir da qual as motivações, interesses e percursos de cada espectador se tornam radicalmente individuais. Podemos ter uma sala cheia com duzentas pessoas e cada uma delas estar ali movida por uma razão ou um motivo diferente. Sei bem que uma “categoria” da tipologia dos espectadores de cinema contempla o “público de Cinemateca”, às vezes descrito com algum desprezo como “os ratos de Cinemateca”. Mas até do “público de Cinemateca” eu contesto a suposta uniformidade: o miúdo de 16 ou de 17 anos que está a começar a descobrir os clássicos não é o mesmo, nem procura o mesmo que um espectador de 60 ou 70 anos com uma longa vida de cinéfilo atrás de si; o espectador que não perde um “western” pode não ter interesse nenhum pelo cinema experimental, e vice-versa. Podíamos multiplicar exemplos destes. A resposta para a pergunta “para quem se programa?”, na sua dimensão prática, pode portanto ser esta: programa-se para cada um, individualmente, e programa-se para a diversidade de indivíduos, na esperança de que ela se possa unir, nem que seja temporariamente, pelo tempo de uma sessão de cinema.

2) Há uma célebre anedota do tempo em que Henri Langlois dirigia a Cinemateca Francesa. Consta que a primeira projecção pública de uma cópia reencontrada do “Nosferatu” do Murnau, que estivera algumas décadas invisível, teve fraca adesão de espectadores e não estariam mais de dez pessoas na sala. Um colaborador de Langlois, desanimado, lamuriou-se, ao que ele teria respondido: “qual quê! é maravilhoso!”. Surpreendido, o colaborador perguntou-lhe onde estava a “maravilha”. E Langlois explicou: “estes dez, quando o filme passar outra vez, vão trazer outros dez, da vez seguinte já serão quarenta, e um dia a sala estará cheia!”. Langlois não se enganou muito, porque hoje em dia, quando se exibe o “Nosferatu”, a sala está normalmente cheia. Podemos extrair desta anedota uma moral da programação de uma cinemateca: programa-se para o futuro, programa-se para “fabricar” espectadores de cinema, programa-se para garantir que essa espécie de gente – o “espectador de cinema” – não entrará em vias de extinção, programa-se hoje para que amanhã a sala esteja cheia.

 

Ao longo de nove anos Mark Deputter pensou o Teatro Maria Matos “como um lugar onde artistas e públicos se encontram para refletir sobre o mundo em que vivemos”. Congregando a dança, o teatro, a música, a performance ou a instalação num campo multidisciplinar, evidencia-se a flexibilidade e a proximidade entre instituições como o Teatro e o Museu. Com um lugar estabelecido no contexto artístico português, que papel tem a comunicação e as suas estratégias na manutenção e atracção de novos públicos?

CATARINA MEDINA (diretora de comunicação – Teatro Maria Matos)

Há 12 anos atrás, depois de algum tempo dedicada ao jornalismo, comecei a trabalhar em comunicação cultural. Algumas cadeiras na faculdade, a experiência do “outro lado” como jornalista e uma boa dose de empirismo foram o meu começo. Ao recordar esse tempo, é-me evidente a diferença entre a forma como se perspetivava o marketing e a comunicação cultural na altura e agora. A título de exemplo: os textos e as fotografias promocionais. Era frequente a valorização da perspetiva artística em detrimento de uma linguagem simples e rica, adequada ao público-alvo, quando a convivência entre ambos sempre foi possível e desejável. Atualmente grande parte das instituições culturais de Lisboa e do Porto tem equipas de comunicação que, mesmo que reduzidas, assumem diversas funções (estratégia e orçamento, planos de meios, assessoria de imprensa, redação de conteúdos, site e redes sociais …, contratam equipas/serviços de design gráfico, vídeo, som, fotografia, entre outros). Também muitos dos artistas, quando lhes é possível fazer esse investimento, contratam alguém para trabalhar a comunicação/ assessoria de imprensa do seu projeto. Infelizmente, fora dos centros o cenário não é tão promissor. Existem ainda muitos espaços onde a comunicação é mais uma das funções do produtor. A meu ver a premissa fundamental para ser possível pensar em estratégia e angariação de públicos de forma consistente e consequente passa pela profissionalização do sector.