Portugal, Portugal: um mapa alternativo do cinema

Luís Mendonça

O facto de ser co-editor do site de cinema À pala de Walsh e de desenvolver investigação na área do cinema e da fotografia há vários anos tem-me levado a conhecer Portugal, país do cinema. À pala disto, o meu conhecimento deste muito real “mapa do cinema” tem aumentado na proporção da minha curiosidade em relação a todos os projectos que fogem à lógica do grande evento. Os festivais de cinema pululam nas principais cidades do país.
O crescimento tem sido notável, mas tende agora para um modelo de exibição baseado mais nos filmes do que no cinema. O que quero dizer com isto? Que, de um modo geral, muitos festivais, e cineclubes no seu seguimento, tornaram-se mais canais de vazamento de filmes do que espaços de formação de um olhar e de uma memória cinéfilas. Por questões de gosto ou de sobrevivência, é preciso programar o mais impressionante número de filmes possível para o maior número possível, idealmente irrazoável, de espectadores. Ao mesmo tempo, nos festivais passa-se muito rapidamente de uma situação de excesso de oferta, num período concentrado de tempo, para uma multiplicação do mesmo, no circuito comercial.

Os festivais de cinema e o circuito comercial de distribuição ocupam pólos opostos, mas, como em quase tudo na vida, os extremos também se tocam aqui. Ambos não têm feito tudo ao seu alcance para servir devidamente os tempos da cinefilia. O que é a cinefilia? Um meio de relacionamento crítico com o mundo mediado pelo cinema. Na sua última aparição pública, aquando do lançamento da menina dos seus olhos, a revista Trafic, o crítico Serge Daney apontava a cinefilia como o lugar onde se faz rever os filmes 1. Essa instância que faz rever pode ser a da escrita como a da conversa. A cinefilia representava para Daney um conjunto de “práticas sociais”. Mas, acrescento eu, ela vive também de um tempo específico. Henri Langlois, o fundador da Cinemateca Francesa, costumava fazer a distinção entre as figuras do cinéphage e do cinéphile. O cinéphage é um coleccionador acéfalo de dados sobre a Sétima Arte. O cinéphile é alguém que digere, por norma longamente, o que vê. Ora, quando se come de mais e brutamente, é bom que se tenha em mãos um comprimido que facilite o trabalho do estômago. É aqui que entra a reflexão desafiante, a partilha sensível ou a dimensão social da prática cinéfila. Também é aqui que entra o gosto pela (re)descoberta gourmet do velho, do esquecido ou do ignorado.

Neste momento, as oportunidades de ver filmes pelo país fora são muitas e organizadas com grande abnegação e profissionalismo. Mas, talvez tolhidas por uma reinante lógica quase “cinefágica” da quantidade, muitas destas iniciativas acabam por se deixar devorar pela sua dimensão de evento puramente mediático. À medida que fui conhecendo o nosso país do cinema, dei de caras com pequenas bolsas de resistência que vão passando ao largo da “febre” dos festivais-acontecimento que trituram os tempos da cinefilia. Em escalas distintas, mas primando pela associação entre reflexão e exibição, e recusando a ideia perigosamente redutora do cinema como competição, três projectos ajudaram-me a desenhar um mapa alternativo do cinema em Portugal. São três casos em que não são os filmes do cinema mas o cinema dos filmes a pesar em cada opção de programação. São três casos em que a alternativa se constitui apesar das carências, de políticas, de infraestruturas e de cultura, existentes nas cidades que os acolhem. Olhemos para eles, seguindo a sua localização no mapa deste Portugal nem sempre coincidente com o Portugal que aparece nos jornais e agendas culturais.

Em Famalicão, o cineclubista Vítor Ribeiro juntou meios e forças para fundar não um “festival de cinema”, mas um laboratório, onde a partilha cinéfila – das ideias e sentimentos espoletados pelos filmes – é temperada com contributos de outras artes – música, fotografia, vídeo-instalação – para oferecer uma programação que olha para a forma e o conteúdo antes de olhar para o efeito. Uma abordagem que promove um outro olhar e uma outra respiração em torno dos filmes. Através deles, organizam-se encontros com todo o tipo de pessoas ligadas, directa ou indirectamente, ao cinema: artistas, programadores, professores, escritores… personalidades vindas de todo o país e que tornam Famalicão uma “cidade-cinema”. No Observatório Close-up – é à obra-prima de Abbas Kiarostami que Vítor foi buscar o nome para esta experiência – todos somos espectadores desse amor partilhado às imagens do cinema. O impulso de Vítor vem de trás, muito de trás: do amor ao cinema que lhe está no sangue. Mas o Close-up também é um projecto que reage a um panorama nacional tendencialmente empobrecedor da experiência cinéfila, contrariando, muito efectivamente, lógicas instituídas. Explica 2: «O Close-up foi surgindo com naturalidade. (…) Temos falado nestes dias sobre o que existe de festivais de cinema em Portugal. Gosto muito de cinema e costumo ir a festivais, mas irrita-me bastante a quantidade de festivais que existem sem qualquer tipo de identidade, principalmente o típico festival que só tem um concurso de curtas e em que se nota que quem está a organizar aquilo não tem minimamente uma ligação com o cinema.
Faz uma selecção, arranja um júri… Hoje há festivais de cinema sem cinema». Pergunto pelas causas e efeitos desta emergente configuração dos eventos de cinema como grandes happenings que parecem deixar o cinema dos filmes para último na sua lista de prioridades. A resposta de Vítor é elucidativa: Ainda há poucos dias – não vou referir os nomes dos festivais – falava sobre isso: existe uma verdadeira ditadura de imposição de números. Portanto, os festivais fazem as maiores peripécias, com festas, happenings, outro tipo de coisas, para garantirem números. Nós depois vamos ver as sessões que realmente interessam e estão desertas. 

A ditadura dos números e dos prémios tem como corolário, por um efeito de redução, um esvaziamento do lugar dos filmes no nosso imaginário. Um sintoma desse esvaziamento é narrado por Miguel Valverde, um dos directores do festival IndieLisboa, numa conversa publicada no À pala de Walsh 3: «Eu dou aulas de Direitos de Autor a alunos, que supostamente são de cinema, e pelo segundo ano consecutivo nenhum deles tinha ouvido falar que a Balada de um Batráquio (2016) tinha ganho o Urso de Ouro em Berlim». Ora, é aqui que está o problema: o sucesso do filme de Leonor Teles foi aferido por um prémio e não pela sua relevância cinematográfica ou pelas “ondas de choque” que produziu numa comunidade de espectadores. Essas “ondas de choque” duraram muito menos do que as ondas mediáticas que invadiram o espaço público aquando dessa honrosa premiação em Berlim. Uns espectadores não receberam a notícia, mas mais ainda não viram o filme. Ao mesmo tempo, poucos espectadores fizeram equivaler a sua reacção ao filme – onde? Nas redes sociais, por exemplo – à histeria súbita que naquele dia fez um número significativo de cinéfilos partilhar a notícia – sem ter visto o filme e eventualmente sem fazer por o ver mais tarde – com mensagens de “parabéns ao cinema português”.

Os Encontros Cinematográficos do Fundão destacam-se pelo seu espírito informal, quase boémio, consubstanciado numa programação que não se distrai com a espuma dos dias, nem tampouco sucumbe às categorizações fáceis que afastam o “fazer” do “ver” e do “falar” cinema. Conversei com Carlos Fernandes4, o coordenador principal deste projecto que nasceu em 2010 com e para os amigos beneficiando do apoio da associação cultural sem fins lucrativos Luzlinar. Os Encontros são, nas suas palavras, muito simplesmente isto: Sem pódios, prémios ou hierarquias, queremos simplesmente juntar as pessoas e conversar sobre o que todos gostamos. Recebemos os convidados como amigos, por isso a informalidade, depois o cinema fica no centro. Produzem-se textos, entrevistas, que têm eco para lá do Jornal dos Encontros ou das páginas do Jornal do Fundão, e convocam-se pessoas da terra e fora dela, nomeadamente alunos da Universidade da Beira Interior, com a mesma naturalidade com que se recebem realizadores, programadores e críticos. Realizadores de grande relevo nos panoramas nacional, tais como Pedro Costa, Manuel Mozos e Rita Azevedo Gomes, e internacional, tais como Victor Erice, Boris Lehman e Andrea Tonacci, cruzam-se com críticos, professores e jovens cineastas vindos de todo o mundo, dando especial atenção ao pensamento crítico que se produz no Brasil, destacando-se as presenças reincidentes de Bruno Andrade (revista Foco) e Sérgio Alpendre (Revista Interlúdio). A fórmula foi encontrada numa política da amizade de raízes firmemente plantadas num amor incomum ao cinema: «Os Encontros são sobre o cinema, todos fazem parte dele, nós queremos isso. Quando trabalhamos numa coisa séria, se gostamos do trabalho e das pessoas, tudo se harmoniza de maneira natural».

Números recentes do ICA confirmam uma realidade inquietante no mapa do cinema em Portugal, pondo em evidência a existência de dois países no que toca à exibição cinematográfica. Mais de metade das entidades que recebe o apoio do Estado está situada a norte, havendo uma importante discrepância entre norte e sul no que diz respeito ao número de recintos de exibição não comercial no país. Esta assimetria geral conhece casos excepcionais. De Évora, trago um exemplo de dinamismo que constitui uma alternativa de qualidade em qualquer ponto no país. O Cinema-Fora-dos Leões é um projecto presentemente encabeçado pelo arquitecto e investigador doutoral da Universidade do Porto Luís Ferro e pelo professor auxiliar e director do Departamento de Filosofia da Universidade de Évora José Manuel Martins. Sediado na Universidade de Évora, este clube de cinema alimenta-se da mais pura cinefilia, sendo, explica Luís Ferro, «um bastião do que poderia ser um clube de cinema para universitários».

Apesar do apoio formal da Universidade de Évora, esta produção assenta totalmente na generosidade destes dois programadores. A vinda de cerca de três dezenas de realizadores portugueses e outros tantos estrangeiros ao Cinema-Fora-dos Leões saiu-lhes directamente do bolso. Com efeito, a sua programação reflecte uma vontade de formar um gosto cinéfilo vasto, heterogéneo e exigente. Ermanno Olmi, Andrzej Zulawski, Jaime Rosales, José Luis Guerín, Hiroshi Teshigahara, Yoshishige Yoshida, Haile Gerima e Ousmane Sembène foram alguns cineastas dados a descobrir no catálogo de filmes programados por este clube de cinema. Os filmes são acompanhados de folhas de sala, apresentações, debates e/ou conferências garantidas por especialistas maioritariamente provenientes da academia. Não é possível ver sem ler, também não é possível ler sem ver, avança o Professor José Manuel Martins, acrescentando: «A minha relação com o filme tem necessariamente de resultar em escrita, mas o resultado dessa escrita pretende ir ao coração do filme, que não sei se é imagem, pensamento, significação, sensação (no sentido deleuziano), ou essas várias coisas juntas». Viabiliza-se assim, nota Luís Ferro, uma educação do público, propiciada pela relação entre realizadores, os filmes, especialistas (quase sempre académicos) e a audiência.

O Cinema-Fora-dos Leões elenca entre as suas finidades – que podemos ler nos seus posts de Facebook – [a]spirar à caridade municipal da mais ampla divulgação da programação de cinema (e outras) na cidade (correntemente em eclipse militante). Questionado sobre a aparente escassez de oferta de cinema no sul do país, Luís Ferro avança com uma interpretação pessoal interessante: Eu eventualmente tenho uma espécie de impulso para responder que não é bem assim, não é bem verdade: o sul não está de todo inerte. Acontecem imensas coisas em Évora. (…) Em Beja, por exemplo, a programação é também enorme, nas suas várias dimensões. Mas há um fenómeno que eu vejo no Alentejo e que não consigo explicar bem – eventualmente tem que ver com o espaçamento e a concentração dos povoados que se isolam muito – que é exactamente isso: um pouco como na Sicília, o que se passa em Beja, fica em Beja e só se sabe em Beja; o que está em Évora sabe-se de vez em quando [fora da cidade], mas totalmente em Évora. E por aí fora. Resistindo como ervas daninhas contra o desinteresse da Universidade de Évora, o eclipse da própria cidade e da cultura “siciliana” da região do Alentejo, o Cinema-Fora-dos Leões não pára: prepara neste momento um ciclo com os filmes iniciais de Carl Th. Dreyer, que conta com o reconhecimento – mas não o apoio – da Embaixada Dinamarquesa, e um grande simpósio dedicado a Ingmar Bergman, evento em que se associará a Embaixada da Suécia com a Fundação Bergman e a Direcção Geral da Cultura.

O Observatório Close-up, os Encontros Cinematográficos e o Cinema-Fora-dos Leões são três casos paradigmáticos de uma forma de exibição do cinema que não exclui a reflexão, a pedagogia e a descoberta. Pelo contrário, são pólos de dinamização da cultura cinéfila, provocando ideias, esmiuçando hipóteses e fomentando paixões. Os festivais de cinema, que são, na realidade, festivais de filmes, não estão a projectar cinema, porque projectar implica um investimento, um tempo próprio; antes, exibem slots de filmes, que são lançados ao espectador “às pazadas”. Ou cedemos à bulimia, comemos e deitamos fora, ou ficamos entregues a nós mesmos no momento crítico da digestão. Aplauda-se quem, no Portugal sem visibilidade e com poucos ou nenhuns apoios, promove, mesmo que a contracorrente, uma relação verdadeira com o cinema. A alternativa fundamental para qualquer cinéfilo.


© Encontros Cinematográficos, A Moagem - Cidade do Engenho e das Artes.




Notas

1. A intervenção de Serge Daney pode ser vista e ouvida no seguinte link: centrepompidou.fr [consultado a 12/05/2018].
2. Entrevista – Vítor Ribeiro: “Os filmes que não consigo engavetar são os que eu mais gosto de programar e promover”- publicada originalmente no À pala de Walsh, [consultado a 12/05/2018].
3. A conversa – Estados Gerais: “O cinema em Portugal é uma arte burguesa, para não dizer aristocrática” – pode ser lida no seguinte link: apaladewalsh.com [consultado a 12/05/2018].
4. Entrevista publicada originalmente no À pala de Walsh – Carlos Fernandes: “Não andamos a brincar aos programadores” [consultado a 12/05/2018].