Projecto: GHOST Edições

David-Alexandre Guéniot

De onde vem o nome da editora? 1

GHOST é a associação de duas palavras, GUEST e HOST. Tem por origem um programa de residências artísticas que organizei, com a artista e investigadora Catarina Simão e a curadora Aida Castro, entre 2010 e 2011, no Atelier Real, em Lisboa. O princípio dessas residências era o de problematizar a noção de “espaço de programação”, como espaço físico de acolhimento, mas também a programação como curadoria. Foram convidados cinco colectivos (A Sala, a Rádio Zero, a revista Detritus, a Groovie Records e a Oficina do Cego), que vinham de universos artísticos e disciplinas diferentes, a apropriarem-se de forma temporária, mas intensa, do espaço e dos meios do Atelier Real para organizarem as suas próprias actividades. A programação questionava – e praticava, através de actividades concretas – a relação entre ser convidado (guest) e ser anfitrião (host) e a possibilidade de fundir essas duas qualidades numa, fazendo assim aparecer uma nova figura, um ghost, que ocupava um espaço e que era também (pre)ocupado por ele. A identidade e independência do host, em vez de ser ameaçada pela presença do guest (e vice versa), deslocava-se e enriquecia-se através da acção de novos contextos, usos e sentidos.

Como nasceu a editora?

Em 2011, com a Patrícia Almeida, fotógrafa e co-fundadora da GHOST, fomos confrontados com três sintomas que, juntos, concorreram para criar um momento de “crise”. O primeiro foi a situação nacional e as consequências económicas e sociais da aplicação brutal e cega das políticas de austeridade.

Nesse contexto, percebemos que investir tempo e meios para produzir exposições ou programações que puxem para a criação de objectos artísticos perdia temporariamente força e interesse, porque o próprio mercado da arte em Portugal, privado e público, se estava a desmoronar. A necessidade de criar objectos cedeu o passo à urgência de questionar a criação e a programação enquanto actos. Um segundo sintoma, consequência do primeiro, obriga-nos a repensar as nossas formas de trabalhar. Sentimos a necessidade de conhecer outras metodologias, de partilhar com outros artistas, de explorar outros contextos, de confrontar ideias e experiências, de desafiar os modos de especialização estabelecidos para a produção de objectos e de conhecimentos. Um dos primeiros projectos que publicámos, o fanzine “Não tenho medo porque não tenho nada”, uma recolha de imagens de cartazes usados durante uma das primeiras manifestações contra a intervenção da Troika em Portugal, resume um pouco o espírito: “Quem não tem nada a perder, tem uma liberdade total de acção”. Essa liberdade de poder questionar favorece a ressurgência de paradigmas de produção que pareciam ultrapassados (Do It Yourself, self-publishing, etc.) ou de distribuição (circuitos independentes, lojas especializadas, etc.): soluções antigas adaptadas às novas ferramentas de divulgação, de produção e de distribuição permitidas pelo digital e pela internet. O terceiro sintoma manifesta-se através da redefinição dos percursos profissionais e artísticos que a editora vai operar sobre nós, através de uma melhor compreensão dos nossos interesses e práticas individuais. A versatilidade do livro, sobretudo nas suas dimensões artística e ensaística, constituía uma plataforma ideal de criação, de reflexão crítica e de encontro a que aspirávamos. Com a editora, pudemos dar corpo a projectos editoriais e eventos programáticos que associam uma abordagem experimental com a produção de conteúdos artísticos e teórico-práticos sob as mais diversas formas: publicações, exposições, encontros e debates.

Qual é a linha editorial da GHOST?

A resposta a essa pergunta está a ser escrita (e reescrita) a cada publicação. A linha editorial não ficou definida à partida. Tem uma natureza dinâmica. É, por vezes, uma posição difícil porque dificulta a capacidade, perante os outros (clientes, jornalistas, pares), de comunicar não só o que fazemos, mas também quem somos. Somos muitas vezes associados ao livro de fotografia (photobook) porque a Patrícia é fotógrafa e porque frequentamos feiras internacionais e nacionais associadas à fotografia. Mas esse facto é também o resultado de uma conjuntura. Nos últimos dez anos, o livro de fotografia tem desempenhado um papel central na estruturação de um mercado internacional bastante democratizado, com editoras, compradores, distribuidoras, livrarias especializadas (físicas e online), colecionadores (privados e institucionais), jornalistas especializados, investigadores, formadores, blogs, revistas e jornais, clubes de discussão, exposições, etc. No entanto, se alguns dos livros que editamos podem ser etiquetados de “photobooks” porque são livros de artistas feitos por fotógrafos, outros aproximam-se do ensaio visual, do design ou da performance, outros transformam-se em escultura ou são projectos de exposições.

A nossa linha editorial tem sobretudo a ver com as nossas práticas: a fotografia para a Patrícia e a dança contemporânea para mim. De uma certa forma, é normal uma linha editorial retratar os seus editores e os seus gostos. Gostos esses que não são caprichos – mesmo que sejam inevitavelmente fruto de relações de proximidade e de cumplicidade com os autores cuja obra conhecemos bem e que estão disponíveis para nos acolher nas suas obras (o princípio do ghost) e não a viver essa intromissão como uma invasão. Gostos esses que são mastigados por anos de experiência e que são (in)formados por reflexões sobre a arte contemporânea, sobre as práticas artísticas, sobre o teor da prática editorial enquanto actividade criativa e crítica. Até é importante não perder o gosto, ou seja, a capacidade de se entregar, de confiar que um projecto tem um interesse que ultrapassa os hábitos culturais instituídos. Acontece, muitas vezes, que não temos a mínima ideia se o livro vai agradar. Fazemo-lo por outras razões.

Em que consiste o trabalho de uma editora?

É curioso ver que em francês (ou em inglês), o termo ‘editora’ se traduz por “maison d’édition” (ou “publishing house”), ou seja, pressupõe um espaço físico de encontros, de trabalho, de cruzamentos de competências, enquanto que em português é a acção de transformar ou produzir que é valorizada. Historicamente, no século XVIII, a profissão de editor nasce de uma diversificação da profissão de livreiro quando as livrarias adquirem o privilégio exclusivo de publicar livros. As livrarias não só constituem um espaço comercial de venda de livros, ou seja, de distribuição, mas também de contratualização de serviços entre um autor e uma gráfica. Esta história é também reveladora da história das lutas de poderes que existem entre o mundo da edição e o mundo da distribuição.

O livro enquanto objecto é de uma certa forma, uma metáfora da editora vista como “casa de edição”, porque representa um espaço onde várias pessoas trazem as suas competências para torná-lo habitável. Umas escrevem, outras fotografam, outras corrigem, outras paginam, outras desenham, etc., sendo que o último habitante do livro é o leitor. O livro desenvolve-se na confluência de várias competências. É uma força centrípeta onde convergem as contribuições dos diferentes intervenientes. Está no centro de todas as atenções. E cada um trabalha para transformá-lo num objecto autónomo. A noção de autor não desaparece, porque é o trabalho dele que serve de impulsão inicial (sem essa impulsão inicial, o livro não tem razão de ser), mas a autoria do livro enquanto objecto-projecto dilui-se nos vários níveis de intervenção.

Uma outra coincidência terminológica é o facto de o termo ‘editar’ se aplicar ao cinema, no sentido de “montar um filme”. Editar um livro não é só seleccionar os conteúdos que vão entrar nele, mas também montar esses conteúdos, é associar imagens com textos, textos com textos, imagens com imagens, de forma a que essas associações sejam significantes. Neste sentido, o editor aproxima-se do designer ou do autor, e dialoga com eles em função dessa montagem que ele próprio faz… tendo em conta a sua leitura, e o que o leitor precisa de saber para entrar na obra. Existe ainda mais uma comparação com o cinema: a editora como produtora. Investe dinheiro e reúne o casting: autor, designer, e outros intervenientes (guests) para fotografar, investigar, ilustrar, comentar, etc. Ou seja, o projecto de edição começa na própria constituição da equipa que vai colectivamente trabalhar na realização do livro.

David-Alexandre Guéniot / www.ghost.pt






Notas

1.Perguntas e respostas pela Ghost.

2. COMPLEXIDADE, Patricia Almeida, David-Alexandre Guéniot, Jorge Louçã, Luís Antunes (editores), 2015.