Projecto: Markéta Stará Condeixa

Markéta Stará Condeixa

Dentro e fora do lugar

Apesar de ter sido fundada em 2014 como associação cultural, sugerindo por isso um acto colectivo, a Syntax 1 é na verdade um projecto (curatorial) bastante pessoal, e em certo sentido uma reacção à minha adaptação ao contexto artístico português. A minha mudança para Lisboa deveu-se pouco aos (inegáveis) encantos da cidade, ao clima fantástico, aos “segredos” da cozinha portuguesa ou à qualidade de vida, como acontece agora com muitos estrangeiros que se têm mudado e comprado habitações na capital portuguesa. À semelhança da pouca familiaridade que tinha com a cidade e país (para além, evidentemente, de algumas descrições subjectivas do meu marido português, umas quantas visitas e uma selecção modesta de publicações sobre Lisboa e Portugal), também o meu conhecimento sobre o contexto artístico português era restrito a um grupo de artistas, cujo trabalho tinha visto essencialmente em bienais e outras grandes exposições internacionais de arte contemporânea.

Vinda de uma cena artística pequena, as minhas expectativas quanto à cena lisboeta não eram de todo baixas, uma vez que contextos mais pequenos geram muitas vezes meios artísticos ricos e pujantes, especialmente quando comparados com contextos maiores e mais globais que, movidos pelo poder do mercado, acabam frequentemente por reproduzir tendências efémeras determinadas por uma linguagem artística global. Não demorou muito até que as minhas suspeitas sobre uma forte produção artística em Portugal se confirmassem, talvez ainda mais forte do que tinha inicialmente esperado. Contudo, o que me surpreendeu foi a diversidade do contexto a nível institucional, que me pareceu um pouco redutor e claramente insuficiente em relação à produção de jovens artistas existente. Para além de algumas excepções, também bastante introspectivas no que diz respeito a uma representação do contexto artístico português. Sentia a falta de visibilidade de uma cena jovem e experimental, bem como de uma ligação ao circuito internacional que pudesse apresentar, correndo alguns riscos, jovens artistas estrangeiros, em vez da segurança do artista já estabelecido, como parece ser o caso de muitas exposições de artistas internacionais em Portugal. Ao fazer o reconhecimento da paisagem institucional lisboeta, pude ver um bom número de instituições maiores e uma rede de galerias comerciais surpreendentemente vibrante. Espaços independentes ou os conhecidos espaços sem fins lucrativos podiam contar-se pelos dedos de uma mão, e aqui gostaria de salientar que, como a maior parte das pessoas, eu só tenho cinco dedos.

Na minha prática curatorial, naveguei por vários tipos de organizações, experimentando espaços de arte independentes, instituições maiores e, através de vários projectos curatoriais, passei por diversas galerias comerciais. Estou certa de que no meu percurso profissional futuro poderei experimentar estes terrenos novamente, dependendo claro do contexto e da situação em questão. Contudo, dadas as circunstâncias actuais do ambiente local, iniciar a Syntax como um espaço independente pareceu ser a oportunidade perfeita, contribuir para a cena local e ajudar a preencher o que considerava ser uma espécie de lacuna. Embora o termo independente possa ser ligeiramente enganador, já que todos somos de uma forma ou de outra dependentes, por exemplo das mais variadas estruturas financiadoras e do próprio sistema artístico, no caso da Syntax eu defenderia uma independência comercial, não estando “directamente” dependente dos mercados de arte local e global, o que claramente redirecciona a nossa área de interesse. Esta posição permite-nos imediatamente uma direcção diferente de programação e a construção de um modelo institucional diferente, que é sem dúvida um dos principais objectivos que a Syntax procura continuamente alcançar.

O conceito de estrutura desempenha um papel importantíssimo e define de muitas formas o nosso modus operandi, o objectivo é oferecer um ambiente funcional, daí a necessidade de uma estrutura para a produção, apresentação e fruição de arte contemporânea. Tudo o que fazemos na Syntax começa com a selecção das pessoas com quem trabalhamos, sejam elas artistas, curadores ou mesmo outras instituições. A maior parte da nossa programação baseia-se na produção, uma vez que os nossos colaboradores e a natureza das nossas colaborações exigem que participemos na produção de novos trabalhos. Embora esteja bem consciente de que nunca houve na história da arte uma produção artística tão abundante como a de hoje, gosto de pensar que estar envolvida na produção de obras novas muda realmente a forma como contactamos com os artistas, permitindo-nos fazer verdadeiramente parte do trabalho que está a ser desenvolvido, ao mesmo tempo que nos conduz a novas relações com o contexto local. Apesar de soar a cliché típico de candidaturas a financiamento, depois de doze exposições, cinco residências artísticas e mais alguma programação que fizemos na Syntax, atrevo-me a afirmar que o desenvolvimento destas relações é mais do que o mero cumprimento de requisitos que os manuais ditam, mas requer evidentemente a nossa contínua atenção e esforço para que elas perdurem e se mantenham eficientes.

Embora a programação da Syntax englobe diversas actividades, julgo no fundo que somos um espaço de exposições e o formato expositivo o nosso meio preferencial. É por isso que muitas das coisas que fazemos fora deste formato acabam eventualmente por tornar-se numa exposição, seja pelos temas ou pelos artistas com quem colaboramos. A selecção curatorial é essencialmente pessoal e um resultado dos meus próprios interesses. O contexto ao qual a Syntax pertence é naturalmente tido em conta e as escolhas são feitas também em sua função, o que em certas alturas pode jogar contra o contexto, noutros momentos podem emergir trabalhos e artistas que partilham um território comum com o meio local. Nada está cristalizado e muito embora a programação seja agora feita com um ano de avanço, tento sempre ter alguns espaços em aberto para que a Syntax se mantenha sensível e reactiva a qualquer coisa que esteja a acontecer, a nível local ou global.

Penso que precisamos de equilibrar um pouco a nossa estratégia de programação entre os planos local e internacional. Essa é uma das razões pela qual começámos a incluir mais artistas portugueses no nosso programa, em exposições a solo ou de dois artistas que se confrontam, o que acabou por se revelar um formato que resulta muito bem. Se o futuro nos permitir, gostaria muito que a Syntax tivesse um pequeno espaço de projectos para a geração de artistas mais jovem, o que aconteceria em paralelo com o nosso programa principal. Como sempre, e tal como tantos dos nossos outros projectos que temos no papel, trata-se de uma questão de financiamento e de espaço. Na verdade, quanto a este último podemos vir a ter mais possibilidades, uma vez que vamos deixar as nossas actuais instalações para um espaço um pouco maior. Imagino que as pessoas já considerem que a mudança faz parte da nossa identidade, o que estava longe de ser a nossa intenção. Por outro lado, há algo de sedutor e dinâmico em estar dentro e fora do lugar.

 


Nuno da Luz, Sud e magia, 2016 Fotografia: Bruno Lopes © Syntax


Katarína Poliaciková & Nikolai Nekh, Nocturanal Measurements and the Invisible State of Shine, 2015. © Syntax e Bruno Lopes.


Colorless Green Ideas Sleep Furiously, 2015. © Syntax e Bruno Lopes.



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Notas

1. À data da publicação deste número a Syntax localizava-se na Rua Feio Terenas n.º 23, 1170 -020, Lisboa.